Eles chegaram… (“Arrival”)

Fazia tempo que eu não assistia a um filme assim tão bom… Na verdade, excepcional. Daqueles que você não consegue tirar da cabeça depois que assiste. Que fica revivendo a todo instante. Que te fazem sentir uma compulsão de ver novamente. (Entende o que eu digo?) Pois é… Isto aconteceu pouquíssimas vezes ao longo desta minha jornada de cinéfilo de mais de cinquenta anos, iniciada aos 5, quando meus pais me levaram, pela primeira vez, a um cinema para assistir “Jasão e o velocino de ouro”. (Aquele foi um dia mágico… Por causa do filme, que me deixou encantado, e do arco-íris na saída da matinê, ao final de uma tarde de sol com chuva.)

Voltando ao assunto principal: O que foi, mesmo, que me impressionou tanto em “Arrival“?
Vejamos… Até então, “2001: Uma Odisséia no Espaço“, “Blade Runner, O Caçador de Andróides” e Interestellar eram meus favoritos. Posso dizer que “Arrival” é do mesmo quilate que estes fulanos: impacto visual (fotografia primorosa), conceitual (ideias originais, algumas perturbadoras) e introspectivo (faz a gente refletir um bocado depois de assisti-los).

humanÀ parte, preciso salientar a interpretação fenomenal da Amy Adams (sem dúvida, digna de uma estatueta), o trabalho de direção de alta qualidade do canadense Dennis Villeneuve e o roteiro adaptado (by Eric Heisserer) que conseguiu fazer a estória ser ainda mais interessante que o conto original, o excelente “Story of your Life”, do pouco conhecido mas talentoso Ted Chiang, ganhador de inúmeros prêmios Nebula (o Oscar da ficção-científica).

Mesmo que você não seja um profundo apreciador do gênero, como é o meu caso, se gosta de uma boa estória dramática vai gostar deste filme. (Eu garanto!) Não dá para contar muita coisa dele, sem correr o risco de estragar a brincadeira… O que se pode dizer é que Ms. Adams faz o papel de uma lingüista (Dra. Banks) que é chamada pelo governo para atuar como tradutora de uns camaradas “meio estranhos”, vindos do espaço, que resolveram aparecer de forma inesperada, estacionaram uma das “navezinhas” deles no quintal de casa do Tio Sam e não disseram qual o motivo da visita. Quer dizer… pode até ser que tivessem dito mas, simplesmente, ninguém conseguia entendê-los!

E sabe como é: o desconhecido dá um baita de um frio na barriga da gente, a ponto de a espinha gelar… e deixar todo mundo nervoso!

Depois de assistir você me conta se gostou (ou não), OK?

Inté…   😎

Micro & Macro

São 1:30 da madrugada de uma segunda-feira. Perdi o sono…

Um dos maiores desafios que enfrentei quando assumi minha primeira gerência, há mais de 20 anos atrás, foi a transição interna a que tive de me submeter para deixar de fazer (ou parar de ensinar aos outros como fazer) as coisas e passar a confiar na avaliação técnica e no julgamento de especialistas, que sabiam mais do que eu, em determinados assuntos.

Em outras palavras, tive que aprender a delegar. (E devo confessar que não foi uma transição das mais fáceis…)

Acostumado, como estava eu, a ser considerado, pelos meus pares, um dos melhores em meu ramo de atuação (na época, um programador sênior tarimbado e especialista em modelagem de dados), havia-me apoiado em meu conhecimento técnico e experiência anteriores, adquiridos durante anos de trabalho dedicado e muito auto-estudo, para orientar minhas decisões e balisar minha nova forma de trabalhar.

Funcionou perfeitamente quando, da primeira vez, fui promovido para uma função de liderança técnica. Meus colaboradores imediatos executavam tarefas que eu dominava completamente e esta competência técnica proporcionou-me uma base sólida, onde finquei os alicerces da minha liderança e autoridade.

O problema agora era bem diferente. O passo seguinte, que estava dando na hierarquia gerencial, exigia que eu coordenasse um grupo de especialistas que dominavam assuntos a respeito dos quais eu tinha apenas uma razoável idéia. Fiquei desconfortável. Havia, evidentemente, aproveitado meu tempo como lider técnico para conhecer melhor o “modus operandi” da companhia, desenvolver um relacionamento cordial com meus pares e principais líderes (sabia quem era quem, a quem poderia recorrer para resolver determinado tipo de problema, com quem podia contar e em quem não devia confiar). Interessei-me pelo assunto da administração de empresas (cheguei a prestar vestibular e frequentar dois anos de um curso noturno na USP). Enfim, procurei me preparar para a missão de realizar as tarefas, a mim confiadas, através do trabalho das pessoas que estavam sob minha responsabilidade, sem que eu mesmo soubesse realizar o referido trabalho.

In the beginning, VERY weird… E bastante intimidador! 🙁

Quanto mais alto subimos na hierarquia gerencial, pior a situação fica… Deixamos, nos assuntos técnicos, de ser especialistas para nos tornarmos generalistas. Tornamos-nos especialistas em uma nova categoria profissional: a de gestores.

Quando é que esta “escalada” acaba? Bem… um amigo meu costumava dizer que o limite é a medida da nossa incompetência. Enquanto formos competentes no que fazemos, subimos. Quando deixamos de fazê-lo, empacamos. Fim da linha!  (Muita maldade dele, não?)

É evidente que nem todos nós somos talhados para a função gerencial. O fato de um sujeito querer (ou gostar de) mandar, e de estar em uma posição que permita fazê-lo, não significa que tenha competência para tal… (Tive a oportunidade de vivenciar isto, mais de uma vez, ao longo dos meus vinte e tantos anos de trabalho no ramo de TI, durantes os quais atuei de estagiário a diretor-técnico, em doze diferentes empresas.)

Uma coisa interessante de se observar é que um sujeito pode ser um mau gestor e, mesmo assim, as coisas andarem… Por inércia, incompetência do chefe dele, porque ele tem um “QI” elevado, e coisas do tipo. Há muito desperdício, muito retrabalhado, sangue, suor e lágrimas desnecessários no mundo corporativo. Coisas que poderiam ser feitas mais rapidamente, de uma forma mais simples ou mais barata. Ou simplesmente, que não precisavam ser feitas de forma alguma…

Uma pena!

bandeiraSe incompetência gerencial já é um aborrecimento crônico no mundo corporativo, no governo é uma verdadeira catástrofe. Da mesma forma que nas empresas, no governo há de tudo: dedicados e oportunistas, mandriões e carreiristas. Há chefes que, conscientes da sua limitação em determinados assuntos, optam por uma linha de ação na qual procuram se cercar de pessoas competentes que supram tais lacunas (o tipo de coisa que se aprende a fazer nas escolas de gestão). E há, também, os “donos da verdade”, que parecem não escutar ninguém e se acham na obrigação de dar, sempre, a última palavra em tudo!

As consequências da má gestão, no caso do governo, costumam ser muito graves, em razão das escalas envolvidas. Quando uma empresa faz muita bobagem, fica mal das pernas, acaba comprada por outra ou quebra e encerra as portas. Quando a bobagem é do governo, especialmente quando a incompetência gerencial atinge o topo da cadeia de comando, o número de pessoas afetadas conta-se na casa dos milhões e o volume de recursos desperdiçados, na de bilhões… De dólares!

É mole?  🙁

Como evitar a má gestão? Contratando (ou elegendo) líderes gestores, que sejam competentes. Mas isto não é uma tarefa muito fácil…

Vejamos o caso de nossos dois últimos presidentes da República: o Sr. Lula e a Dona Dilma.

Ambos são do mesmo partido, abraçam as mesmas causas sociais e, em teoria, esperava-se (eu, pessoalmente, pelo menos, achava isto) que ela teria mais sucesso que ele. Primeiro, dado que se beneficiaria do conhecimento acumulado durante a gestão de seu antecessor. (Afinal, os partidos, como nós, também aprendem com os próprios erros, não?) Em segundo lugar, pelo fato de ela (uma economista formada) ser uma pessoa “MUITO mais estudada” do que ele (um “simples” torneiro mecânico e ex-lider sindicalista). Certo?

Ledo engano…

Parece que, contrariando minhas ingênuas expectativas, o Sr. Lula, consciente de suas limitações no campo do ensino formal, compensou-as cercando-se de quem parecia “entender do riscado” mais do que ele próprio… (Sabemos, agora, que até demais… Hehehe!) Isto resultou em autonomia, de fato, para o Banco Central. Fez com que se desse  continuidade a uma política criada pelo seu antecessor, de um partido rival (“em time que está ganhando não se mexe…”). Enfim, Mr. Lula compensou suas eventuais deficiências técnicas com uma extrema habilidade para reunir, em seu redor, um grupo gente que soubesse como “fazer acontecer”…

A literatura especializada costuma referir-se a exemplos deste tipo como sendo os de um verdadeiro lider! 😉

VEJA BEM… (Hehehe) eu NÃO sou lulista (e de forma alguma acho que ele deveria voltar a ser presidente deste país… Precisamos de  sangue novo, ideias novas, renovação!)

Mas não há como negar que, do ponto de vista dos resultados macroeconômicos alcançados durante a sua gestão, o Ilmo Sr. ex-presidente Luis Ignácio Lula da Silva se saiu MUITO melhor que a  nossa atual mandatária.

Fatores estruturais favoráveis, fora do seu alcance (como, por exemplo, a China comprando feito uma doida e o FED zerando as taxas de juros americanas), contribuíram para o seu sucesso? Pode até ser… A sorte, sabemos muito bem, é um ingrediente importante na vida, como em um jogo de cartas. Mas é preciso saber jogar. E a um jogador hábil é sempre dada a possibilidade de ganhar, a despeito das cartas que tenha nas mãos.

O mesmo, infelizmente, parece que  não pode ser dito da nossa querida “presidenta”…

Com uma frequência preocupante, ela consegue se superar a cada dia:  cada vez mais turrona, cada vez mais impulsiva, mais acuada e impotente. Sem querer fazer, aqui, trocadilho de mau gosto: ela está, literalmente, “perdidinha da Silva”.

E eu estou pasmo!

(Como puderam enganar tanta gente por tanto tempo? Como chegamos a este ponto, meu Deus, de termos um governo assim,  tão ruim?)

Onde estou querendo chegar com esta estória toda?

Hum… Acho que acabei divagando um pouquinho aqui, né? Estou cansado. Vou dormir.

Inté!
😎

Cavalo de Tróia

Cavalo de Tróia

Sabe aquela máxima “perder o amigo, mas não perder a piada?” Acho que tem muito jornalista e chargista que se guia por ela. Vejamos o caso da charge acima, que andou circulando, recentemente, no Facebook.

É evidente que, entre as centenas de milhares de refugiados que estão procurando um cantinho para ficar em solo europeu, deve ter uns terroristas infiltrados no meio… Mas é muita inocência (para não dizer má fé xenofóbica) supor que não haja terroristas entre os viajantes comuns… Alguns, aliás, nasceram na própria Europa e nem sequer precisaram entrar nela, pois sempre estiveram lá! Basta acompanhar o noticiário internacional para ver a quantidade de europeu que faz parte do EI.

Usar esta possibilidade como pretexto para excluir os que estão, realmente, necessitados (como a mensagem da charge pode sugerir) é, no mínimo, hipócrita e “desumano” (no sentido de não se importar muito com os menos afortunados). O desenho até que é bem feitinho, não resta dúvida… (Embora a ideia seja um tanto óbvia!) Em minha opinião, trata-se de humor negro e, como sempre,  de muito mau gosto.

Uma leitura mais ampla do contexto em que  a ação da charge se desenrola exige que recapitulemos alguns fatos históricos, para tentarmos entender o quadro mais geral e o comportamento de alguns protagonistas importantes. Vejamos…

1) O Ocidente (leia-se Inglaterra, França e EUA) é parcialmente responsável por este estado de coisas… Afinal, foram estas potências que, para prevalecerem sobre as nações “inferiores”, durante o recente período de neocolonialismo, aplicaram com diligência a máxima de “dividir para governar”. Assim, ao reunir etnias historicamente rivais (como xiitas, sunitas e curdos) sob um mesmo teto (leia-se um país arbitrariamente definido, sem respeitar os limites impostos pela ocupação humana preexistente) eles fomentaram a rivalidade entre as mesmas, evitando que se unissem e, desta forma, pudessem se livrar do jugo do dominador. 

Maquiavélico, não?

Pois é… Funcionou que foi uma beleza, na Índia, por mais de 200 anos! A tensão entre muçulmanos e sikhs era tamanha, por ocasião da independência, que os indianos tiveram que realocar uma parte da população e acabaram criando o novo estado do Paquistão.

Agora, o que me intriga, mesmo, é saber o motivo pelo qual o magnânimo Tio Sam, quando teve a oportunidade de corrigir o “erro” histórico de seus antigos mestres (“quebrando” o Iraque, etnicamente dividido, em um conjunto de países menores e independentes entre si), optou por não fazê-lo… (Será que foi para manter a divisão e, deste forma, poder melhor controlar o precioso fluxo de petróleo, de que tanto os EUA precisam?) Ponto para reflexão.

Outro ponto importante: 2) Por que a OTAN (organização militar da Europa + EUA) não põe um fim, de uma vez por todas, neste tal de Estado Islâmico? Recursos militares eles têm se sobra…

Arrisco-me a dizer que o motivo é básico: as questões humanitárias, no “mundo real”, pura e simplesmente, não rendem dividendos. A não ser por meia dúzia de idealistas, os caras que decidem fazem as contas e, se o resultado financeiro final for “prejú”, acabam optando pelo velho e conhecido “laissez-faire” (ou, se preferirem, por um sacrossanto princípio de “autodeterminação” dos povos). Muito conveniente, não? Estou cada vez mais convencido de que, na maior parte das vezes, sempre foi assim!  🙁

Pois não é que os caras deixaram a coisa “degringolar de vez”, nos Balcãs, até que finalmente intercederam, quando não tinham mais jeito de pular fora… (e olha que a antiga Iugoslávia ficava, literalmente, no quintal dos fundos da Europa!).

Mais exemplos? Vejamos… Ruanda, Etiópia, Camboja… Alguma coisa foi, efetivamente, feita nestes lugares, para evitar as tragédias humanas que se abateram por lá? (Para azar deles, eles não tinham nada, do ponto de vista econômico, que pudessem oferecer em troca de “ajuda humanitária”…)

Não menos importante é o fato de que a Alemanha (embora tenha ainda muito do que se redimir, pelo enorme sofrimento que impingiu a “meio mundo”, nas duas grandes guerras mundiais) se mostrou excepcionalmente caridosa. Não nos enganemos, seu governo não é nada bobo. Certamente, esperam auferir algum benefício com esta “grande ação humanitária”. É fato que a população alemã está envelhecendo, e diminuindo, de forma consistente e preocupante. Eles sabem que precisam repor a mão-de-obra que vai faltar… E nós sabemos, por experiência própria , do que são capazes pessoas desesperadas, que não tinham nada, e às quais foi dada a oportunidade de um recomeço. (Vide o efeito altamente polinizador – e enriquecedor – das imigrações japonesa, italiana e alemã no sul/sudeste do Brasil, na virada do século XIX para o XX).

Como costumam nos ensinar nos livros de administração, trata-se de uma negociação do tipo “ganha-ganha”. O que, com certeza, é uma coisa muito boa!

Finalizando minhas elucubrações deste post, há quem tema, ao acolher estes pobres coitados, sofrer uma invasão islâmica, e o fato de o islamismo ser considerado por alguns (mal informados, com certeza!) uma religião sanguinária…

Veja bem… (Hehehe!) Podemos dizer que protestantes e católicos são igualmente sanguinários, se nos lembrarmos das Cruzadas, da Santa Inquisição ou do IRA, certo? Conheço alguns muçulmanos que são até bem pacíficos… E, certamente, eu incluiria os milhões de refugiados atuais nesta categoria.

Inshalá!!!  😎

P.S. “Inshalá” (ou “Inshallah”) é uma expressão árabe que significa: “Se Deus quiser”, Oxalá.

Je suis Charlie (?)

“Como não poderia deixar passar em brancas nuvens os comoventes acontecimentos da última semana, a respeito dos quais teço aqui algumas considerações…”

Não sou nenhum profundo conhecedor de estratégias antiterroristas ou técnicas de controle de massas mas… qual a utilidade de se mobilizar elevado contingente de militares, como vem fazendo a França, ao longo da última semana, em resposta ao ataque ocorrido no semanário Charlie Hebdo? Foram deslocados quase 10 mil homens e mulheres para este fim, além dos habitualmente alocados em serviços de segurança interna, como inteligência e patrulhamento ostensivo. Será que eles esperam, para breve, novos ataques, em continuidade aos últimos?

Se sim, como, e por quanto tempo, pretendem manter este oneroso contingente extra, mobilizado, motivado, alerta e, efetivamente, atuante? Vão começar a pedir na rua a carteira de identidade de todo mundo que parecer suspeito? (Aliás, qual a aparência de um “suspeito”?) Existem, atualmente, mais de 5 milhões de muçulmanos morando na França. Uma grande parte deles é francesa de nascimento. Checar todo mundo, o tempo todo, seria, de alguma forma, útil? Ou desejável? Ou, mesmo, factível?

Se eu fosse terrorista, eu dava um tempo, esperava as coisas se acalmarem, este contingente todo se desmobilizar e, só então, voltaria à carga. Convenhamos que esta é uma ideia bem simplória, que certamente deve ter ocorrido a um “zilhão” de terroristas, certo? Portanto, qual a efetividade da mobilização, a não ser “mostrar serviço”, dar a ilusão de que alguém (neste caso, o próprio governo) está fazendo alguma coisa… No mínimo, aumentar, na população, a sensação (psicológica!) de segurança… Será isto?

Pessoalmente, não estou muito convencido desta última afirmação. Tenho lembrança de duas ocasiões vividas, uma quando tinha uns oito anos de idade (nos idos da “era de chumbo”, quando era comum a guerrilha brasileira atacar agências bancárias para financiar as suas ações) e outra já maduro (quando, por motivos profissionais, tive que visitar uma Guatemala recém pacificada), em que a presença maciça, nas ruas, de soldados portando metralhadoras, acabou tendo um efeito exatamente oposto, produzindo em mim um medo desmedido e desnecessário.

Para arrematar, os ultrarradicais da Frente Nacional (partido francês de direita) perderam uma ótima oportunidade de se promoverem ao não participar das manifestações generalizadas ocorridas no último fim-de-semana, em diversos pontos da França, que reuniram mais de quatro milhões de pessoas, para homenagear as vítimas dos recentes atentados terroristas e expressar o seu repúdio pelo fanatismo religioso. O problema é que o pessoal da FN é adepto da máxima do “dente por dente, olho por olho”, não gosta muito de imigrantes e muito menos de muçulmanos.

Nós, brasileiros, sabemos, por experiência própria, que a fusão de raças e culturas diversas, possibilitada pela imigração, nos enriquece, provê sinergia e acaba, no final, se revelando uma coisa boa. Sabemos, também, que nem todo muçulmano é um fanático terrorista!

Parece-me que o pessoal da FN não sabe nada disto… (Este assunto ainda vai dar muito pano prá manga!)
😎

P.S. Por mais hediondo, e injustificável, que tenha sido o ataque dos irmãos Kouachi ao semanário satírico, os caras do jornal francês abusaram da sorte… (Já haviam sofrido atentado a bomba antes e precisavam de proteção policial, ineficaz como os fatos acabaram demonstrando.) E, embora, pessoalmente, eu concorde, em princípio, com o direito inalienável da liberdade de expressão, considero cortesia, polidez e boa educação como sendo coisas MUITO boas, as quais aprecio sobremaneira. Cultivá-las demonstra, no mínimo, um certo grau de finesse, expressão francesa que as vítimas do atentado pareciam não valorizar muito, sabe-se lá por qual motivo.

À primeira vista, este fato poderia demonstrar uma “aparente” contradição, visto serem, eles mesmos, os tais jornalistas mortos, representantes de uma certa intelectualidade estudantil diretamente envolvida com uns movimentos reivindicatórios ocorridos em Paris, em maio de 1968. Portanto, la crème de la crème! É interessante observar que, no mundo do politicamente correto, da “descoberta” americana do velho e conhecido bullying (vai me dizer que você nunca sofreu, ou presenciou, este tipo de coisa em casa, na rua ou na escola, quando era criança…) a gente acaba tendo a tendência pueril (complexo de vira-lata?) de achar que tudo aquilo que vem “daquela parte das Europa que fala fazendo biquinho”, é, necessariamente (só por causa da sua origem), muito melhor, ou superior, ao que temos “porraqui”… Ledo engano!

Os caras podiam ser muito inteligentes, algumas vezes espirituosos (ou, mesmo, engraçados) mas não tinham o mínimo de educação, ou consideração pelas crenças dos outros… Ridicularizar o outro, porque não pensa como você, é bullying na melhor acepção da palavra, grosseria pura mesmo… e total incivilidade! Pior quando você se esconde atrás de uma publicação, alegando seu “direito inalienável de liberdade de expressão”, para falar qualquer (desculpem o termo) merda que lhe dê na telha. Comportamento que não contribui, em nada, para a construção de uma sociedade pluralista, que valorize a multiplicidade de visões de mundo ou que tolere as diferenças.

A fronteira é tênue, eu sei. E navegar nela, com maestria, é MUITO difícil… (exige sensibilidade, “bom senso” e responsabilidade!) Para alcançarmos a utopia da paz mundial imaginada pelo grande John Lennon, não podemos nos esquecer, jamais, de uma  máxima de outro guru, o iluminado Siddhartha Gautama, que diz: “A virtude está no meio.”

Pensado bem… “Je ne suis pas Charlie Hebdo.”

Pas de tout!  😎

Querido pai (in memoriam)

Não sei se há, mesmo, uma vida após a morte; se podemos, realmente, nos comunicar com os mortos; se existe uma alma imortal, com direito a segunda chance e repescagem ou se, ao contrário, a morte é o fim de tudo e, depois dela, sobrevêm o nada.
Decerto, tenho cá, comigo, uma ideias “meio materialistas” a respeito destes assuntos mas, devo confessar, não ficaria nada desapontado, ou mesmo aborrecido, se, depois de morto, viesse a constatar que estava redondamente enganado!
Seria uma daqueles ocasiões em que (os casados sabem do que estou falando…) NEM SEMPRE o melhor é a gente ter razão ou estar certo. 🙂

Saindo dos “entretantos” e entrando nos “finalmentes”, o fato é que o dia de finados se aproxima e, queiramos ou não, a data enseja em nós um momento de reflexão sobre o grande fato definidor (ou, se preferirem, delimitador) de nossas vidas, que é a morte. É quando damos um tempo, na correria do dia-a-dia, para nos lembrarmos e celebrarmos, com carinho e respeito, daqueles que já se foram desta para melhor.
No México costumam fazer uma grande festa neste dia. Por aqui, costumamos ser mais reservados e contidos.

Nos cinquenta e poucos anos de existência que me foram dados viver até agora, já perdi muitas pessoas queridas: parentes, amigos, colegas e ídolos. Cada um me tocou de uma forma diferente e aprendi com todos.
Resolvi, neste ano, celebrar os meus mortos e, na impossibilidade (por limitações minhas) de ser justo e fiel à memória de todos eles, decidi fazê-lo escrevendo algumas linhas sobre um em particular, meu pai, na expectativa de que o espírito da mensagem esteja à altura dos homenageados e que a mesma possa se estender igualmente aos demais. Espero que gostem…

Trata-de de uma carta “in memoriam”, onde procuro recordar alguns dos inúmeros bons momentos que tivemos juntos e destacar aquilo que foi, para mim, o seu maior ensinamento: o gosto pelos livros, uma fé inquebrantável na capacidade do espírito e engenho criativo humanos, uma curiosidade inata sobre as coisas do mundo e um deslumbramento infinito com as descobertas das maravilhas da mãe natureza, que nos acolhe e que existe em cada um de nós.

Dito isto, e entrando de fato nos “finalmentes”, vamos a ela:

Querido pai,

Às vezes sinto uma saudade enorme sua. Tão grande e apertada que chega, mesmo, a doer…
Ahrre!!! Sinto falta das suas apaixonadas (e didáticas) explicações sobre como os romanos foram derrotados pelo exército do astuto Aníbal (que cruzou os Alpes montado em elefantes), de como o processo de previsão de tempo é baseado em cálculos computacionais complexos (que levam em consideração milhões de parâmetros coletados por milhares de estações meteorológicas e modelos matemáticos sofisticados).
Ou, simplesmente, de um “causo” curioso, ou engraçado, passado quando o senhor era menino, e estudava na escola agrícola de Barbacena… 🙂

Lembro-me, pai, dos passeios que fazíamos ao centro da cidade, quando íamos de ônibus, eu segurando na sua mão para atravessarmos as ruas mais movimentadas, e de como o senhor sempre dava um jeitinho para fazermos “aquela parada obrigatória” na barraquinha do pastel, para “traçar” um de carne e outro de queijo, fritos na hora… (e, até hoje, os melhores que já comi, “juro por Deus!”).
E de quando jogávamos “gol a gol”, o mano e eu contra o senhor, no quintalzinho da nossa casa da Rua Caquito.
Havia também as barrinhas e “cigarrinhos” de chocolate “Pan” (naquela época, tão bons…) que o senhor trazia à noite, para casa, quando voltava das suas aulas na USP.

Lembra-se da primeira vez que me levou ao cinema para assistirmos a “Jasão e o velo de ouro”? Durante o intervalo foi quando eu vi meu primeiro arco-iris de verdade e ao vivo. Lindo! E da estreia de “2001, Uma Odisseia no Espaço”, que eu amei, embora não tivesse entendido nem metade da estória. (A propósito, tinha exatos dez anos, na ocasião, e como parecia menos quase não me deixaram entrar para assistir ao épico.)

História militar (“Combateremos à sombra!”), arqueologia, matemática, física, cosmologia (Big Bang), economia, política, biologia, computação… a lista de assuntos de que gostava (e dominava) era bastante extensa e eclética. E os livros, então? Era livro para tudo quanto era lado… (Esta mania herdei de você… hehehe!).
Havia também a sua paixão incondicional pela Brigitte Bardot e pela Julia Roberts (que mamãe mal tolerava…), pelas “Jornadas” de Kirk e Spock, pela revista “Scientific American” (em inglês!), pela Bossa Nova de Tom e Vinícius, os “standards” na voz impecável de Johnny Mathis (aqueles discos de vinil tocaram até furar…), o charme sofisticado do velho “chansonnier” Aznavour, Paris (a eterna cidade luz), Saint-Exupéry (o escritor-aviador do “Pequeno Príncipe”, meu primeiro livro em francês), os deuses da mitologia greco-romana, Sean Connery (“James Bond”), o Velho e o Novo Testamentos (imagina se você fosse crente… vixe!), o Newton da maçã, Galileu, Pascal, Descartes (“Cogito, ergo sum.”), Lavoisier (“Na natureza nada se cria…”), Laplace, Fourier (e suas as famosas transformadas), o método de Monte Carlo, as cadeias de Markov, Landau, Fidel (“Êta cabra macho!”), JK, Napoleão, Zhukov (batalha de Kursk), Brizola (outro “cabra macho”), Ulisses (os três), Keynes, Marx (“mais valia”), Einstein (E=mc2), Planck, Bohr, Gell-Mann (“quarks”), Hermman Khan (teórico do “impensável”), Asimov (dos robots), Gamow, Hubble, Sagan (Cosmos), Darwin (“O homem descende do macaco…”), Pasteur, Babbage, von Neumann, Turing, Kennedy (“cabra macho”, indeed!), Galbraith, Da Vinci, Monet, Van Gogh, Renoir, Júlio Verne, H. G. Wells, Orwell (1984)… Esqueci-me de alguém, pai? De muitos, com certeza… Desculpe!
Estes gigantes, que habitavam o seu imaginário cotidiano, que o senhor tanto admirava e cujas descobertas e realizações tanto o fascinavam, conheci-os, a quase totalidade deles, por seu intermédio, através de seus olhos e, por isto, (por mais esta “herança”) sou-lhe eternamente grato.

Com alguma sorte, talvez possa deixar (quem sabe?), quando eu me for deste mundo (em um futuro bem distante… espero!), lembranças igualmente agradáveis e ensinamentos tão significativos como estes, dos quais tenho hoje o privilégio de usufruir, frutos da convivência com um ser humano tão especial que, quis o destino, fosse meu pai.

Obrigado, “meu velho”, mais uma vez e por tudo isto.

E feliz dia dos mortos!
🙂

Made in Cuba

Chega a ser engraçado, se não fosse preocupante, a forma indignada (e muitas vezes irracional) como muitas cabeças pensantes, algumas delas tidas como ponderadas e sensatas, têm atacado a decisão recente do governo federal de importar médicos cubanos para minimizar um problema crônico de escassez deste tipo de profissional em algumas regiões brasileiras largadas ao Deus dará.

Preocupante porque muitas destas pessoas são formadoras de opinião (algumas pelos motivos errados), o que pode influenciar de maneira bastante negativa legiões de espíritos bem intencionados porém desavisados.
Não tenho a pretensão de ser, aqui, mais um dono da verdade, muito pelo contrário. Meu objetivo não é trazer certezas e sim lançar dúvidas. (Aliás, este é um problema que enfrento com cada vez mais freqüência: quanto mais leio e reflito a respeito de determinados assuntos mais angustiado fico diante do crescimento explosivo das perguntas que surgem versus o tímido quantitativo das respostas obtidas. Quem sabe, não tenhamos aqui, um assunto para um futuro post?)

Deixando de lado os “entretantos” e indo direto aos “finalmentes”, vejamos algumas das pérolas que se tem dito a respeito dos médicos cubanos:
1) Que são um bando de pobres coitados explorados pelo governo de Cuba que lhes paga apenas uma parcela do que recebem do governo brasileiro e mantem suas famílias reféns para garantir que não deserdem.
2) Que são mal preparados e que, pelo fato de não fazerem um exame de revalidação, normalmente aplicado a médicos estrangeiros, não estão qualificados para exercer a profissão por aqui.
3) Que pelo fato de não dominarem o nosso idioma não têm a menor condição de exercer a medicina com um mínimo de qualidade requerida, uma vez que não conseguem conversar com (e entender) seus pacientes.
4) Que o nosso governo não está interessado em resolver o problema de saúde de ninguém. Que tudo isto é uma manobra eleitoreira para auferir votos nas eleições do ano que vem.

Tá de bom tamanho?
Como diria o velho Jack, vamos às análises por partes…

1)“(…) um bando de pobres coitados explorados pelo governo de Cuba (…)”
Aqui entre nós: é melhor médico cubano do que médico nenhum, certo? Esta gente, que está tão preocupada com as condições de trabalho dos médicos cubanos, não se importa nem um pouquinho com os cidadãos brasileiros que estão sem médicos? A que sindicato (ou grupo de interesse) será que pertencem? Certamente não é pessoal do sindicato das populações desassistidas, pois estas se beneficiarão com a vinda dos médicos cubanos, acredito eu. Tampouco faz sentido serem do sindicato dos médicos brasileiros. Afinal, as oportunidades foram dadas, antes, aos brasileiros e as vagas não foram preenchidas… Se sobra vaga, ninguém está com o emprego ameaçado. Reclamar, portanto, do quê? Ao contrário, parece-me que nossos médicos deveriam ficar felizes, uma vez que um bando de colegas estrangeiros se dispõe a fazer o trabalho que não quiseram (ou puderam) pegar. E com isto, mais pessoas serão curadas. Isto não é bom? (Estaria de acordo com um tal de Juramento de Hipócrates, se não me falha a memória…)

Se são escravos, parecem felizes (ou, pelo menos, disfarçam muito bem). Estavam muito risonhos e com o aspecto saudável, pelo menos os que eu vi pela televisão sendo recepcionados em alguns de nossos aeroportos. Fiquemos atentos!

Em relação ao fato de os médicos cubanos ganharem menos do que o que governo brasileiro lhes paga… Bem, quem diz isto se esquece de que em nenhum lugar do mundo a coisa é diferente. Qual o funcionário que recebe, integralmente, tudo que o cliente paga ao patrão pelo trabalho feito? (No nosso caso, os patrões são dois. Pois o Leão do Imposto de Renda também morde a parte dele.) Por que o governo de Cuba, que é leão e patrão, não deveria, ele também, descontar a parte que lhe cabe? Leão de um país que tem educação e saúde públicas e de qualidade. E patrão que intermediou, junto ao governo brasileiro, um trabalho que dificilmente seria obtido de outra forma.
Como gostam de dizer os economistas: “There is no free lunch…” Nem mesmo em Cuba!

2)“(…) são mal preparados e (…) pelo fato de não fazerem um exame de revalidação (…) não estão qualificados para exercer a profissão aqui.”
Gostaria de saber em que se baseiam aqueles que afirmam que os médicos cubanos estão “mal preparados”. O Canadá e a Inglaterra, por exemplo, se utilizam, em seus sistemas de saúde, de médicos cubanos. E não podemos dizer que, em matéria de saúde pública, estas duas nações não saibam o que estão fazendo, certo? Aliás, além deles, mais algumas dezenas de países se utilizam dos serviços destes profissionais. Além do mais, desde quando médico brasileiro faz exame de qualificação para poder exercer a profissão? (Seria, aliás, uma ótima medida! Quem sabe, o Conselho Federal de Medicina não passe a exigir dos recém formados, para que possam atuar como médicos, um exame semelhante ao que é aplicado pela OAB para os seus advogados?) O fato de estes médicos cubanos não terem feito o referido exame não quer dizer que não estejam qualificados para a tarefa. Significa apenas que o governo federal bobeou, não costurando antes, com a Justiça do Trabalho (ou quem mais de direito) os termos de um acordo que contornasse este contra tempo à luz do interesse nacional e do bem maior da população atendida pela medida. (É para isto que as leis e os acordos políticos existem, certo?)
Ainda em relação a este assunto, ocorreu-me que, na verdade, não estamos contratando diretamente os médicos cubanos. Se assim fosse, a negociação seria individual, médico a médico (e, neste caso, concordo com a necessidade do tal exame de revalidação). Ao contrário, o que se fez foi a contratação de um pacote de serviços médicos de Cuba. Umas 8,5 milhões de horas, segundo minhas estimativas (equivalente a 4000 médicos durante três anos). Como em toda terceirização, neste caso ocorre que é Cuba quem é a responsável pela qualidade dos médicos que colocar aqui. Se houver reclamação do cliente, troca-se o médico. Simples assim.
Posso estar errado… (mais dúvidas que respostas, lembra-se?)

3)“(…) pelo fato de não dominarem o nosso idioma não têm a menor condição de exercer a medicina (…) uma vez que não conseguem conversar com (e entender) os pacientes.”
Há controvérsias. Os pediatras muitas vezes não conseguem, por motivos óbvios, conversar com seus pacientes, os veterinários (que não deixam de ser um tipo de médico) também não. E o que dizer das centenas de voluntários de organizações assistenciais como a Médicos Sem Fronteiras, que atendem populações carentes das mais variadas etnias e que conseguem fazer o seu trabalho a contento, a despeito das barreiras linguísticas (e outras, mais graves) encontradas desde sempre? E nem por isto deixaram de prestar um serviço médico relevante, aliviando o sofrimento e salvando as vidas de milhões.
Não nos enganemos. É evidente que falar a nossa língua ajuda. Mas espanhol não é tão diferente assim de português (há coisas MUITO piores). E o que é necessário saber falar para se fazer uma consulta básica pode ser aprendido em pouco tempo (português instrumental). Nada que um pouco de boa vontade, orientação correta e empenho não resolvam.

4)“(…) Que tudo isto é uma manobra eleitoreira para auferir votos nas eleições do ano que vem.” Em relação a isto eu não tenho a menor dúvida. Mas o que há de errado se, com esta ação, o governo, de fato, resolver (ou, pelo menos, minimizar) os problemas de saúde destas populações carentes que não dispõem do mínimo do mínimo? Não é assim que as coisas funcionas? “Toma lá, dá cá.” (A gente votando em quem resolveu os problemas da gente, certo?)

Parece até que quem está fazendo este estardalhaço todo está mesmo é querendo sabotar a iniciativa da Dona Dilma. “Ver o circo pegar fogo.”
Seria a ação de algum desafeto ou uma trama patrocinada por algum partido de oposição? (Who knows?)
Posso estar errado… (mais dúvidas que respostas, lembra-se?)
Mas dá prá ver que a coisa é “um pouquinho” mais complicada do que as análises rasteiras que andam circulado por aí.
😎

“Esquecimento…”

PessoAll,

Este tal de Facebook está drenando toda a minha disposição e capacidade criativa para escrever… Tenho colocado muita coisa lá, e deixado este meu pobre site às moscas. Por conta disto, resolvi, a partir de agora, reproduzir aqui os comentários lá postados, e que considere merecedores de serem compartilhados neste meu cantinho “privé”. 😉

Well… o assunto deste post é um filme que assisti ontem e que não me sai da cabeça.
Trata-se de “Oblivion”, que em inglês quer dizer “esquecimento”.
É também o nome do último blockbuster de ficção-científica do super-hiper-astro-galã Tom Cruise. Eu, pessoalmente, não curto muito a figura do Tom Cruise. Considero-o um “filho da mãe” que se acha o tal, na maior parte do tempo. E que interpreta sempre o mesmo papel, dele mesmo. Pode ser implicância minha… (talvez alguma ponta de inveja oculta, sei lá!) O fato é que o “mardito” tem um faro apurado para trabalhar em ótimos filmes de ação e sci-fi, como os imperdíveis “Minority Report” e “Vanilla Sky”.
“Oblivion”, em minha opinão, está à altura desta dupla de clássicos.
Adianto que o forte do filme não são as cenas de ação. As paisagens, por outro lado, são de tirar o fôlego. E a trilha sonora é bastante competente (cheguei a baixar algumas músicas do iTunes).
Agora, o mais importante é que nem tudo é, explicitamente, dito… Jack Harper, o personagem de Cruise (e quem assiste ao filme tb), vai descobrindo as coisas aos poucos…
Se eu tivésse que resumir a moral da estória em uma única frase, diria: “As aparências enganam!”
Uma última coisa: para apreciá-lo, vocês não podem ter, ou estar com, preguiça de pensar… (lembram-se de “Blade Runner”?) Mas, acreditem-me, vale muito a pena.
A despeito do título, trata-se de um filme que, com certeza, não vai cair no esquecimento.
Espero que gostem. 😉

P.S. O trailer pode ser visto aqui.

And here I go, again…

Antes de mais nada, gostaria de agradecer aos amigos e conhecidos que me cobraram, reiteradas vezes, novos posts neste blog. Sorry, folks! Eu sei que não adianta tentar explicar o inexplicável (ou chorar sobre o leite derramado… etc e tal.) O que passou, passou. O negócio, agora, é… bola pra frente!

Para quem está chegando agora, deixe-me esclarecer melhor o que aconteceu: durante uma boa parte de 2011 compareci, por aqui, com uma certa regularidade (pelo menos uma vez por mês) para escrever sobre assuntos variados, de meu interesse, que considerava dignos de uma conversa animada (e inteligente) em uma roda de amigos, durante um happy hour de fim-de-tarde.

O ideal seria fazê-la em algum barzinho da zona sul carioca, à beira-mar, acompanhado de uma “loirinha estupidamente gelada”. Ou, na falta destes, serviria um autêntico e aconchegante pub inglês, numa tarde chuvosa de outono em Covent Garden ou, até mesmo (vá lá!), “dans um petit bistrot”, no coração do Quartier Latin, saboreando um legítimo e encorpado “rouge” MADE IN FRANCE.
Não seria nada mal, heim? Afinal de contas, sonhar, minha gente, é “muitcho bão” e não paga imposto algum! Certo?

Bem…, na impossibilidade de realizar esta minha singela fantasia, ocorreu-me que, graças à maravilha da tecnologia que é a Internet, poderia, se não compartilhar os espaços, pelo menos as ideias, que poderiam ser lidas e discutidas livremente, em qualquer tempo e lugar. Esta era, e continua sendo, a minha proposta.

Mas, como todos (e, principalmente, Joseph Climber) sabem, “a vida é uma caixinha de surpresas”.
Ocorreram algumas mudanças em meu trabalho, que por motivos óbvios não posso aqui comentar, que acabaram minando a minha disposição de, como diria o velho mestre Millôr, livre pensar e escrever.
Aliado a este fato houve, também, a descoberta (e inevitável encantamento inicial) do Facebook.

“Mardito” FB! Gasta-se muito tempo lendo um montão de bobagens lá. No começo é até divertido, mas os assuntos (e as pessoas) acabam se tornando repetitivos, chatos mesmo. (Sorry, again, folks!) O Facebook mostrou-se uma ótima ferramenta para se saber a quantas anda aquele amigo distante, que não vemos há tempos, ou como foi “aquela” festa na qual não deu para comparecer. Conduzir uma conversa mais séria sobre o que quer que seja lá é, simplesmente, impraticável. O negócio, na verdade, não foi feito pra isto. O mais que se pode encontrar lá é um ou outro comentário mais espirituoso e zilhões de “Curtir”.
Menos, né?

Resumindo a ópera… e sem querer explicar o inexplicado, o fato é que fiquei mais de um ano sem escrever aqui. A fonte, simplesmente, secou. Mas, como costumava dizer minha saudosa vovózinha portuguesa, “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”. Ao fim e ao cabo, consegui superar os obstáculos e… I am back!
Espero que gostem… 😉

De Humani Corporis Fabrica

Antes de mais nada peço desculpas aos meus leitores pela demora na entrega deste post. Estou atrasado, eu sei. Mas é que ocorreram “zilhões” de coisas na minha vida, pessoal e profissional, nestes quase três meses de ausência.

Envolvi-me, de uma maneira inesperada, em um novo projeto de trabalho que, felizmente, está frutificando e promete dar um novo alento (novas possibilidades?) para minha, já um tanto desgastada, carreira e ambições profissionais… Não dá para falar muito mais do que isto, aqui e agora. Peço a todos, apenas, que torçam por mim, OK?

Em segundo lugar, minha cadela labrador, depois de duas semanas de muito sofrimento (para ela e para todos nós), acabou, para alívio e tristeza geral, morrendo a caminho do hospital. Estava com cancer metastásico, diagnosticado tardiamente, (a despeito das consultas frequentes ao veterinário… pode?) provavelmente originado nas mamas. Pois é, cadelas também têm este problema, especialmente se não tiverem sido castradas antes do primeiro cio. Infelizmente, descobri isto da pior forma possível: por experiência própria!
É incrível como a gente se afeiçoa a estes bichinhos e a perda deles é sentida como se fosse a de um membro da família. Depois de quase 12 anos de convívio diário não me acostumei, ainda, ao fato de que, ao chegar em casa, ela não estará mais lá, alegre e saltitante, a me saudar com os olhos meigos e a cauda em movimento perpétuo, pronta para brincar comigo e me ajudar a desanuviar a cuca, depois de um dia pesado de trabalho. Ela era minha Happy Hour! Vou sentir saudades… 🙁

Aconteceram também as tão esperadas (e programadas) férias de julho! New York é, simplesmente, fabulosa! Faz juz a toda a fama que tem… e merece um post à parte. Boston, outro destino desta nossa viagem familiar, idem. Aguardem! 😉

And last, but not the least, tem o livro que estou devorando sofregamente (pego-o sempre que surge alguma brecha de tempo livre) e sobre o qual gostaria de me estender um pouquinho aqui. Trata-se da minha “recomendação literária do mês” e é a razão do título um tanto esquisito (em latim) deste post. Estou falando de “Sangue e Entranhas – A assutadora História da Cirurgia.” do médico e jornalista inglês Richard Hollingham, publicado no Brasil pela Geração Editorial. Em uma avalição objetiva (=curta e grossa) eu diria que este livro é, simplesmente, DEMAIS!!! Seguramente um dos melhores que li nestes últimos dez anos (e, acreditem-me, não foram poucos!) 🙂

O autor tece um panorama da evolução da cirurgia, desde a antiguidade (se é que se pode chamar o que era feito, naquelas priscas eras, de cirurgia) até os nossos dias. Destacando a vida e a obra de algumas figuras chave, ele nos mostra os erros e acertos, as dificuldades, os preconceitos e as descobertas feitas por estes homens (e mulheres), às custas de muito sangue, suor e lágrimas. Pode-se dizer que a cirurgia, como a conhecemos, é conquista de pouco mais de 100 anos. O desenvolvimento “explosivo” que ela teve, a partir de fins do século XIX, só foi possível depois de superados quatro grandes obstáculos, que demandaram séculos para serem vencidos:

    1) o desconhecimento da estrutura do corpo humano (anatomia),
    2) não saber como estancar grandes hemorragias (fisiologia da circulação),
    3) não saber como evitar ou minimizar a dor (anestesia) e
    4) não compreender as causas das infecções pós-operatórias e saber como evitá-las (assepsia).

As narrativas são impressionantes. As estratégias adotadas, a obstinação e a engenhosidade dos homens envolvidos, idem.

Um conhecimento mais preciso da estrutura do corpo humano só foi possível a partir dos estudos efetuados, em meados do século XVI, por Andreas Vesalius. Realizados com base na dissecação sistemática (e ilegal!) de cadáveres, culminaram na publicação de sua obra máxima De Humani Corporis Fabrica (A Construção do Corpo Humano), por muitas gerações o guia mais completo e confiável de anatomia humana disponível.

Oitenta anos após Vesalius, William Harvey descobriu o mecanismo da circulação sangüínea. Ambroise Paré, cirurgião-barbeiro(?) do exército francês, desenvolveu uma ferramenta (“bico de corvo”) e técnicas de “ligadura” (de vasos e veias) para estancar grandes hemorragias provocadas por ferimentos de tiro de mosquete.

E por aí vai a história…

Em meados do século XIX (aproximadamente 300 anos depois de Vesalius) um dentista de Boston chamado William Morton, descobre, acidentalmente, as propriedades anestésicas do Éter (um composto derivado de álcool e ácido sulfúrico). Isto representou um avanço considerável ao permitir que se fizessem operações mais demoradas e, portanto, mais complexas. Até então, uma cirurgia, qualquer que fosse a sua magnitude, era (para o infeliz paciente) um empreendimento de altíssimo risco e causa de grande sofrimento. Realizada a seco, com o paciente amarrado e uivando de dor, tinha que ser, acima de tudo, rápida. Para ilustrar este ponto, há uma descrição detalhada, e “muito instrutiva”, de uma amputação de perna feita por um bam-bam-bam da era vitoriana, o Dr. Robert Liston, que conseguia realizar a proeza em menos de 30 segundos!

O problema das infecções foi realmente difícil de resolver… Semmelweiss, um médico húngaro, bateu na trave ao especular que a contaminação por “partículas de material morto” (proveniente dos cadáveres autopsiados) seria a responsável pela alta incidência de febre puerperal (normalmente fatal) na maternidade onde trabalhava. Postulou a importância de se manter limpo o ambiente e instrumentos de trabalho, obrigando os médicos a lavarem as mãos com desinfectante antes das intervenções. Estas medidas acabaram reduzindo consideravelmente as taxas de óbitos que tinha até então. Mas o doutor desentendeu-se com seus pares e, internado pela própria família em um hospício, contraiu uma infecção e acabou morrendo de septicemia.
A solução definitiva só ocorreu quando o grande Louis Pasteur descobriu que as doenças são causadas por germes (micro-organismos) e, baseado neste fato, o Dr. Joseph Lister introduziu procedimentos de assepsia, com o uso abrangente e sistemático do ácido carbólico (um germicida), que reduziram drasticamente as taxas de mortalidade por infecções pós-operatórias.

Tudo isto, y algunas cositas más, é explicado, em detalhes, nas primeiras cem páginas, que correspondem ao primeiro capítulo do livro. Há outros quatro.

Definitivamente, uma leitura imperdível. 😉

No frigir dos ovos

O texto abaixo é baseado em outro, que recebi via e-mail, há algumas semanas, e cuja autoria é atribuída a um tal de Luciano, que pessoalmente eu não conheço.
Trata-se da maior concentração, por centímetro quadrado, de expressões idiomáticas e dizeres em língua portuguesa a que tive acesso nestes quarenta e poucos anos de prática diária do exercício da leitura, iniciada aos dez, quando consegui devorar (no sentido literário, é claro) o meu primeiro romance em um único fim-de-semana.

Expressões idiomáticas e ditos populares sempre me fascinaram… Há, certamente, muitos mais que os relacionados aqui. O país é grande e temos um mar imenso a nos separar de nossos irmãos lusitanos (a respeito dos quais pretendo dedicar algumas linhas em uma outra oportunidade).

Quem tiver um amigo ou conhecido “gringo”, que já tenha aprendido um pouquinho do nosso bom e velho vernáculo e esteja “se achando”, poderia utilizar este texto para “tirar a prova dos nove” e conferir se ele está mesmo tão afiado quanto imagina… (quanta maldade, heim?) Um exercício útil e divertido seria procurar as expressões equivalentes em uma outra língua… por exemplo, in English! (Alguém se habilita?)

Sem mais delongas, vamos ao texto:

Divagações de um autor sobre a arte de escrever

“Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comprou gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem grandes sacadas e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.

Não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

É preciso tomar cuidado para não deixar o leite azedar, não passar do ponto ou encher linguiça demais. Deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para se poder vender o peixe. Afinal, não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos, e muito menos verão com uma andorinha apenas.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas, como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha. Revelam-se escritores de meia tigela, que trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão. Aqueles que são arroz de festa, embora estejam com a faca e o queijo nas mãos, perdem-se em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese), achando que beleza não põe mesa. Acabam pisando no tomate, enfiando o pé na jaca e, no fim, quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. (Quem vê cara não vê coração!)

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Mas, cuidado! Se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino será só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana. Sabe como é: pimenta nos olhos dos outros é refresco!

A carne é fraca, eu sei. Às vezes, dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca e depois, quando se junta a fome com a vontade de comer, as coisas mudam da água pro vinho. Se embananar de vez em quando é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando.

Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.”

😉