O infinito e além…

Na última edição do jornal inglês The Sunday Times, saiu uma matéria sobre os filmes de ficção científica que a NASA considera um amontoado de absurdos pseudo-científicos e que, segundo ela, acabam prestando um desserviço para a causa da divulgação, entre o grande público, de ideias e conceitos minimamente razoáveis sobre o mundo que nos cerca. É fato que a finalidade última dos filmes comerciais é faturar alto vendendo entretenimento para as massas. Mas, por que não juntar o útil ao agradável? Por que não aproveitar a oportunidade para, além de entreter, encantar (e estimular) o público com as possibilidades das realizações, as descobertas e a inventividade do engenho humano?
Há, infelizmente, muito desperdício de material, esforços, ideias, corações e mentes por este mundo afora… E Hollywood não escapa a esta regra. As antigas lendas indígenas, as grandes passagens bíblicas, nossas fábulas infantis e as epopeias mitológicas dos clássicos, além de entreterem, encerravam lições as mais diversas sobre nossas crenças e visões de mundo, transmitindo ensinamentos morais e de vida, testemunho vivo de nosso patrimônio histórico e cultural. Estaríamos perdendo, com seus substitutos (?) modernos, uma oportunidade tão rica de aprendizado?
É certo que vivemos uma nova era de explosão criativa que, aliada aos avanços da mais moderna técnica cinematográfica, não encontra mais limites nas suas formas de expressão. Tudo passa a ser possível. O limite acaba sendo o da própria imaginação (ou, pior, a falta dela). Apesar dos avanços, bom senso parece ser, infelizmente, mercadoria das mais escassas.

Uma boa obra de ficção científica não deve contradizer frontalmente o conhecimento científico estabelecido e sim “estendê-lo”, explorando questões que ainda permanecem em aberto e para as quais, dado o nosso atual estágio de desenvolvimento tecno-científico, várias explicações são igualmente plausíveis, embora não necessariamente verdadeiras. Júlio Verne e H.G.Wells souberam fazer isto muito bem, em pleno século XIX, com os ótimos “20 mil léguas submarinas” e “Guerra dos mundos”, respectivamente.
Alguém poderia argumentar que muita coisa já foi produzida, tudo o que havia de interessante já foi explorado e não há mais nada inteligente a ser dito. Será? Exemplos de bons temas não faltam: universos paralelos (sobre cuja existência, ou não, há muita especulação), nossos “amigos” ETs (idem), viagens no tempo (cuja possibilidade constitui ainda motivo de muita controvérsia), inteligência artificial e manipulação genética, só para ficarmos nos mais óbvios.
Outro ponto importante a destacar, e que está sempre presente nas melhores obras do gênero, é a atemporalidade do espírito humano: a tecnologia evolui, nosso conhecimento sobre a natureza idem, mas o ser humano, com seus medos e limitações, angústias e necessidades, aspirações e sonhos, permanece o mesmo. Esta invariabilidade fornece o referencial que nos permite entender uma nova realidade dentro de um contexto conhecido e que faça sentido (nós mesmos).
Não se trata, portanto, de abordar a técnica pela técnica. Esta acaba sendo um pretexto engenhoso para explorarmos novas possibilidades ou rever, à luz de um novo ponto de vista, temas recorrentes, velhos conhecidos nossos, do espírito e da natureza humanos. Uma obra de ficção científica que não se volte para o homem, que não o tenha como seu ponto central, que se atenha apenas aos detalhes e a explicações estritamente técnicas, não merece o rótulo que almeja. Seria apenas um amontoado estéril de bobagens ou, na melhor das hipóteses, um manual extremamente enfadonho e difícil de se ler.

Dois filmes são especialmente condenados, na referida reportagem do semanário inglês: “2012”, mais um a tratar da “iminente” destruição da Terra, e “O núcleo” (The Core), que fala de uma viagem ao centro da Terra para tentar, através de explosões nucleares, restaurar o movimento de rotação do núcleo de ferro de nosso planeta, que estava parando, com consequências catastróficas para o nosso clima.
Em ambos, conceitos elementares, que deveriam ser familiares para estudantes que tenham completado o ensino médio, como por exemplo o da conservação da quantidade de movimento, são simplesmente ignorados. O rótulo de ficção científica é, para dizer o mínimo, um engodo para atrair aficionados e um insulto para os minimamente informados.
Estas obras, a despeito da boa receptividade que possam eventualmente vir a ter junto ao grande público, estão muito longe de trabalhos de qualidade dos verdadeiros mestres como “Eu, Robô” e “Fundação” (em minha opinião, o melhor romance de sci-fi de todos os tempos) de Isaac Asimov, “Crônicas Marcianas” e o “Homem Ilustrado” de Ray Bradbury (imperdíveis), o “O martelo de Deus” e “O fim da infância” de Arthur C. Clarke (o mesmo autor de 2001, outro clássico), “Minority Report” de Philip K. Dick (uma verdadeira caixinha de surpresas) ou “Um estranho numa terra estranha” do inigualável Robert A. Heinlein.
Felizmente, nem tudo está perdido e podemos encontrar no cinema, para nosso deleite, algumas verdadeiras preciosidades, como:“Contatos imediatos do terceiro grau” e “Jurassic Park” (do grande Steven Spielberg), “2001, Uma odisseia no espaço” (do saudoso diretor Stanley Kubrick), “Gattaca, A experiência genética” (com Uma Thurman, Ethan Hawke e Jude Law), “Blade Runner, o caçador de androides” (estrelado por Harrison Ford), “Alien, o oitavo passageiro” (com Sigourney Weaver), o primeiro filme da trilogia Matrix (com Keanu Reeves), “O Dia em que a Terra parou” (a refilmagem, com o Keanu Reeves, que ficou ótima) e, por último (mas, certamente, um dos primeiros da fila) “Contato” (estrelado pela fantástica Jodie Foster) do inesquecível Carl Sagan. Imperdíveis, também, as séries televisivas Taken (Spielberg, again), Babylon 5, Battlestar Galactica (a versão estrelada por Edward James Olmos) e Star Trek TNG (do capitão Jean-Luc Picard, interpretado pelo fleugmático, e impagável, Patrick Stewart).

Recomendo qualquer uma das obras acima citadas como um excelente ponto de partida para aqueles que quiserem mergulhar no fascinante, e altamente recompensador, universo da verdadeira ficção científica.
Vida longa e próspera!
🙂

P.S. Para quem quiser obter mais referências de boa leitura, recomendo uma visita ao site do prêmio Hugo, concedido anualmente aos maiores autores do gênero (o “Oscar” da literatura de ficção científica) desde a década de 1950.