A vida imita a ficção

Um assunto que me fascina desde a adolescência é o inter relacionamento profundo que existe entre o desenvolvimento da técnica e a maneira como ela impacta o nosso modo de vida, nossos usos e costumes, e a forma como vemos e compreendemos o mundo.
Quer coisa mais fantástica do que a invenção do telescópio (que alterou a posição da Terra no Universo), do microscópio (que revelou um novo mundo em uma gota dágua), da máquina a vapor (que nos aliviou do fardo do trabalho escravo), da arma de fogo (que igualou fortes e fracos), da imprensa (que permitiu que nos tornássemos um pouquinho mais sábios), da TV (que ampliou nossa visão do mundo), das pílulas (hehehe!), das vacinas, antibióticos, assepsia, anestesia, avião a jato, tomografia, computadores, Internet e tantas outras descobertas e invenções maravilhosas? A lista é imensa!

Somos diferentes de nossos antepassados, na medida em que podemos ver, perceber e fazer coisas que eles não podiam, graças a todo o desenvolvimento técnico-científico ocorrido nos últimos 500 anos e do qual somos beneficiários e herdeiros.
Mas, da mesma forma que estas descobertas e invenções me maravilham, elas também me assombram: a capacidade de destruição da Humanidade (possível a partir do momento em que o Homem desvendou o átomo), a exaustão dos recursos do planeta (consequencia do crescimento explosivo da nossa população), as mudanças climáticas decorrentes, a capacidade adquirida de controle  e manipulação das massas (vide propaganda) e, acima de tudo, o alheamento crescente do espírito humano, fruto de um modelo educacional “pragmático”, profissionalizante e subordinado à maxima de transformar homens e mulheres em eficientes agentes de produção e consumo. Este é o outro lado da moeda! São problemas de uma magnitude considerável, que não tenho certeza se conseguiremos resolver, de uma maneira minimamente satisfatória, nas próximas décadas…

E por falar em futuro…
Na semana passada, governo brasileiro anunciou que a ANATEL (Agencia Nacional de Telecomunicações) passará a monitorar, a partir deste ano, TODAS as chamadas telefônicas fixas e celulares. Uma vez concluidas as adaptações que se fazem necessárias, informações como número de telefone chamado e duração da ligação, ficarão ao alcance de um técnico habilitado. Daí para se conhecer o conteúdo da convesa é um pulinho… (Para o Big Brother, um tiquinho…) Houve protestos, é claro. O governo explicou que a medida é necessária para fiscalizar melhor as operadoras, que o sigilo telefônico (garantido pela Constituição) será preservado, etc e tal… Será?

Outra notícia que também de impressionou, e muito, foi o anuncio do Google Translator para Android, que permite que se fale uma frase em inglês no smartfone e o aparelho a repita em espanhol, e vice-versa. Do jeito que a coisa está andando, em 10 anos não precisaremos mais nos obrigar ao longo e árduo esforço (para alguns, martírio) necessário para se aprender uma língua estrangeira. Acho que já vi algo parecido em algum lugar… (lembra do filme Duna?)

Infelizmente(?), a capacidade de processamento de nosso cérebro não acompanha (ainda!) o aumento explosivo de informações que chegam até nós (uma grande parte delas totalmente dispensáveis, diga-se de passagem) o que nos obriga a abrir mão de algumas coisas essenciais (cuidados pessoais, hobbies, cultivo de relações familiares) se quisermos lidar a contento com este esmagador influxo de informações.  Isto é bom?
Conversando um dia destes com um amigo do trabalho, ele me contou sobre a sua experiência recente de transmitir, em tempo real, imagens e textos com comentários seus sobre os lugares que visitara em uma viagem que fizera ao Sul do país com a esposa. Lembrei-me, durante esta mesma conversa, que reunir as fotos de viagem em um album e convidar os amigos para dividir com eles nossas lembranças e impressões durante um jantar, ou churrasco regado com muita cerveja,  haviam nos rendido momentos inesquecíveis e prazerosos de confraternização. Coisas que o Facebook, certamente, não possibilitaria.
“Engraçado” o paradoxo da tecnologia que ao mesmo tempo nos aproxima e afasta uns dos outros…
🙂

8 comentários sobre “A vida imita a ficção

  1. Dulce 1 de fevereiro de 2011 at 12:19

    Muito bom dia, meu filho
    Excelente texto. Tantas e tantas vezes já conversamos sobre isso, não é? Se você, nascido já na era da informação mais rápida, você que cresceu acompanhando todas essas mudanças com naturalidade, ainda se surpreende com elas, imagine sua velha mãe, nascida e criada nos primórdios do século passado, como sente tudo isso, como se situa entre tanta “modernidade”… hehehe… claro que sei o que está pensando. Que sou bem “modernosa” para as minhas mais de sete décadas vividas… Claro.. Vivo cada momento, desfruto de cada nova descoberta, vibro com cada novo florescer, mas isso não impede que, por vezes, eu fique assim, meio perdidinha…

    PS – Já estava sentindo falta de seus escritos por aqui.

    Beijos e um bom dia para você

  2. M. da Gloria Del Tedesco 1 de fevereiro de 2011 at 13:54

    Poxa, Bira, que prazer você me proporcionou. Não conhecia esse seu dote. Ou melhor, conhecia, mas havia me esquecido… (lá se vão mais de trinta anos do nosso convívio escolar diário, não???). Interessante como compartilhamos as mesmas preocupações.
    Vivemos uma era de voracidade, em que conseguimos não perder este contato efêmero até com as pessoas mais distantes e, no meu caso, até desconhecidas… (Permanecemos ligados mas não compartilhamos “de verdade”, salvo em raras ocasiões).
    Parabéns pelo texto. Retorno em breve!
    Beijos

  3. Sergio Prando 1 de fevereiro de 2011 at 17:16

    Poxa Bira parabens pela iniciativa de criar um blog com conteudo de ficção e ciência. Legal, cara. Ainda não tive tempo de ler ele todo mas to no caminho. Continua firme mew!

  4. Edna Yuki Fukushima 1 de fevereiro de 2011 at 23:41

    Olá Bira,

    Já não me lembrava mais como discutíamos todas essas coisas da tecnologia /ciência na nossa época de colégio com fascínio (!). Imaginávamos carros que andassem com simples comando de voz, ou telefones sem fios e que transmitissem imagem concomitantemente….. quem diria , a pensar que já na geração dos nossos filhos muitos só conhecem o telefone sem fio…. é ….uma reflexão interessante essa sua neste texto.
    Que bom que você ainda mantem seu lado de menino curioso, fascinado pelas ciências .
    Parabéns, não perca nunca esta caracterísitica que é a sua marca registrada.
    Foi muito legal poder ler novamente os seus escritos.
    Bjão
    Edna

  5. Paula Barrantes 2 de fevereiro de 2011 at 16:33

    Compadre Bira, este seu post é interessante e profundo, na arte já se encontram discussões também sobre este tema. O fato é que a informação, a tecnologia chegam rápido demais hoje aos seres humanos, nem temos de imediato capacidade de absorver tão rápido a informação, o resultado disso é que muitas coisas vão ficando fragmentadas, diluídas. Nesta fragmentação ficam muitas vezes nossa vida pessoal, nossos gostos, os prazeres simples, o olhar simples e inquisidor sobre a essência das coisas.
    Para quem estuda História da Arte existe o dilema de excesso de informação rápida e da simples capacidade de se ler um bom livro, olhar detalhadamente uma pintura, pensar no bom filme, coisas cada vez mais distantes. Como será o futuro deste ser humano sem estas coisas? Mas acredito que irá chegar o momento em que o ser humano terá conhecimento e discernimento suficientes para saber seu ponto de equilibrio, a hora dos momentos de lazer, das conversas com amigos, de seus hobbies, os animais de estimação, as plantas e também o desenvolvimento espiritual interior, seu crescimento enquanto pessoa. O ser humano está virando a máquina produtiva que move a tecnologia produtiva porque ainda não se deu conta de que ele é mais do que isso.
    O importante, para não ficar louco neste mundo, é encontrar as brechas de humanidade que ele nos proporciona, e se olharmos bem elas estão em todos os momentos esperando que nós as enxerguemos e usemos. Umberto Eco em seu maravilhoso livro a Misteriosa Chama da Rainha Loana, coloca tão bem isso ao dizer através de seu personagem principal ” Viver a vida real é como viver em uma obra de ficção. Criamos um personagem que sorri aos conhecidos na rua, que sai de casa sempre preparado para atuar em equilibrio com os outros seres do mundo.”
    Feliz o ser que consegue enxergar a si mesmo em meio a sua ficção.

  6. João Carlos Vieira Ignácio Junior 2 de fevereiro de 2011 at 18:31

    Não sei se as inúmeras redes sociais de hoje realmente aproximam as pessoas… Essa aproximação proporcionada pela tecnologia me parece muito mais fria do que uma relação cara a cara. Acredito que o ser humano tem a necessidade de sentir o outro… O filme “O Substituto”, com Bruce Willis, mostra um pouco disso.

    Valeu pelo post, Bira!

  7. Maria Antonieta 3 de fevereiro de 2011 at 23:41

    Meu querido
    Nós, que durante toda nossa vida profissional estivemos sempre com as novas tecnologias batendo à nossa porta, nos obrigando a aprender sempre mais para não ficarmos ultrapassados e para continuarmos no mercado de trabalho, sabemos o quanto é difícil acompanhar as mudanças.
    No meu caso, você sabe, que mesmo trabalhando há 32 anos em TI (não tinha esse nome no princípio) e mesmo concordando com as facilidades e comodidades que algumas tecnologias nos apresentam, eu ainda continuo relutando muito em me dobrar a algumas delas.
    Falar olhando nos olhos, abraçar, sorrir, andar de mãos dadas ou levar alguém (mais novinho ou mais velhinho) pela mão… O ser humano só sobrevive vivendo dessa forma. É o que chamamos de calor humano.
    Os cinemas continuam lotados para bons filmes (às vezes nem tão bons). As filas (reais e não somente as virtuais) para se estar de corpo presente com um venerado artista num show que certamente se tornará inesquecível também permanecem. Ver em um palco uma boa interpretação é muitas vezes uma emoção indescritível.
    Então, quer que seja pela arte ou por outros caminhos, com maior ou menor intensidade no uso da tecnologia, a beleza da vida ainda reside nas boas relações humanas.
    Parabéns pelo artigo!
    Um beijo,
    Tô.

Deixe uma resposta

Nome *
E-mail *
Site