No frigir dos ovos

O texto abaixo é baseado em outro, que recebi via e-mail, há algumas semanas, e cuja autoria é atribuída a um tal de Luciano, que pessoalmente eu não conheço.
Trata-se da maior concentração, por centímetro quadrado, de expressões idiomáticas e dizeres em língua portuguesa a que tive acesso nestes quarenta e poucos anos de prática diária do exercício da leitura, iniciada aos dez, quando consegui devorar (no sentido literário, é claro) o meu primeiro romance em um único fim-de-semana.

Expressões idiomáticas e ditos populares sempre me fascinaram… Há, certamente, muitos mais que os relacionados aqui. O país é grande e temos um mar imenso a nos separar de nossos irmãos lusitanos (a respeito dos quais pretendo dedicar algumas linhas em uma outra oportunidade).

Quem tiver um amigo ou conhecido “gringo”, que já tenha aprendido um pouquinho do nosso bom e velho vernáculo e esteja “se achando”, poderia utilizar este texto para “tirar a prova dos nove” e conferir se ele está mesmo tão afiado quanto imagina… (quanta maldade, heim?) Um exercício útil e divertido seria procurar as expressões equivalentes em uma outra língua… por exemplo, in English! (Alguém se habilita?)

Sem mais delongas, vamos ao texto:

Divagações de um autor sobre a arte de escrever

“Quando comecei, pensava que escrever sobre comida seria sopa no mel, mamão com açúcar. Só que depois de um certo tempo dá crepe, você percebe que comprou gato por lebre e acaba ficando com uma batata quente nas mãos. Como rapadura é doce mas não é mole, nem sempre você tem grandes sacadas e pra descascar esse abacaxi só metendo a mão na massa.

Não adianta chorar as pitangas ou, simplesmente, mandar tudo às favas. Já que é pelo estômago que se conquista o leitor, o negócio é ir comendo o mingau pelas beiradas, cozinhando em banho-maria, porque é de grão em grão que a galinha enche o papo.

É preciso tomar cuidado para não deixar o leite azedar, não passar do ponto ou encher linguiça demais. Deve-se ter consciência de que é necessário comer o pão que o diabo amassou para se poder vender o peixe. Afinal, não se faz uma boa omelete sem antes quebrar os ovos, e muito menos verão com uma andorinha apenas.

Há quem pense que escrever é como tirar doce da boca de criança e vai com muita sede ao pote. Mas, como o apressado come cru, essa gente acaba falando muita abobrinha. Revelam-se escritores de meia tigela, que trocam alhos por bugalhos e confundem Carolina de Sá Leitão com caçarolinha de assar leitão. Aqueles que são arroz de festa, embora estejam com a faca e o queijo nas mãos, perdem-se em devaneios (piram na batatinha, viajam na maionese), achando que beleza não põe mesa. Acabam pisando no tomate, enfiando o pé na jaca e, no fim, quem paga o pato é o leitor que sai com cara de quem comeu e não gostou. (Quem vê cara não vê coração!)

O importante é não cuspir no prato em que se come, pois quem lê não é tudo farinha do mesmo saco. Diversificar é a melhor receita para engrossar o caldo e oferecer um texto de se comer com os olhos, literalmente.

Mas, cuidado! Se você tiver os olhos maiores que a barriga o negócio desanda e vira um verdadeiro angu de caroço. Aí, não adianta chorar sobre o leite derramado porque ninguém vai colocar uma azeitona na sua empadinha, não. O pepino será só seu, e o máximo que você vai ganhar é uma banana. Sabe como é: pimenta nos olhos dos outros é refresco!

A carne é fraca, eu sei. Às vezes, dá vontade de largar tudo e ir plantar batatas. Mas quem não arrisca não petisca e depois, quando se junta a fome com a vontade de comer, as coisas mudam da água pro vinho. Se embananar de vez em quando é normal, o importante é não desistir mesmo quando o caldo entornar. Puxe a brasa pra sua sardinha, que no frigir dos ovos a conversa chega na cozinha e fica de se comer rezando.

Daí, com água na boca, é só saborear, porque o que não mata engorda.”

😉

6 comentários sobre “No frigir dos ovos

  1. Dulce 10 de junho de 2011 at 16:06

    Tá bom, meu filho.
    Lembrando sempre que tantas vezes vai o pote à fonte, que um dia ele se quebra… hehehe
    Beijos

  2. Thiago 11 de junho de 2011 at 01:07

    eheh… é isso ae!

  3. Angelica 15 de junho de 2011 at 07:11

    Fantastico!

  4. José Luiz 15 de agosto de 2011 at 10:42

    Bira,

    Como diria o Lelé Silveira, ao ler este texto me sinto como “a flower on the wall”. Mas decerto é melhor do que viver “playing the second fiddle”. Aproveitando que temos esta oportunidade de ficar “chewing the rug”, e que hoje não está “raining cats and dogs” , let´s “carpe diem”.

    Em tempo: Lelé já “give up the ghost”.

    Regards,
    Joe

    • Eliete 18 de setembro de 2011 at 12:17

      Perfeito.

  5. Paula 27 de setembro de 2011 at 17:37

    Compadre Bira,
    Incrível este texto! Fiquei vários minutos matutando sobre o conteúdo e um coitado estrangeiro lendo isso…
    Vou fazer a experiência colocando o mesmo para minha amiga Christa ler.
    Vamos ver a reação dela ao vivo e a cores… 😉

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