De Humani Corporis Fabrica

Antes de mais nada peço desculpas aos meus leitores pela demora na entrega deste post. Estou atrasado, eu sei. Mas é que ocorreram “zilhões” de coisas na minha vida, pessoal e profissional, nestes quase três meses de ausência.

Envolvi-me, de uma maneira inesperada, em um novo projeto de trabalho que, felizmente, está frutificando e promete dar um novo alento (novas possibilidades?) para minha, já um tanto desgastada, carreira e ambições profissionais… Não dá para falar muito mais do que isto, aqui e agora. Peço a todos, apenas, que torçam por mim, OK?

Em segundo lugar, minha cadela labrador, depois de duas semanas de muito sofrimento (para ela e para todos nós), acabou, para alívio e tristeza geral, morrendo a caminho do hospital. Estava com cancer metastásico, diagnosticado tardiamente, (a despeito das consultas frequentes ao veterinário… pode?) provavelmente originado nas mamas. Pois é, cadelas também têm este problema, especialmente se não tiverem sido castradas antes do primeiro cio. Infelizmente, descobri isto da pior forma possível: por experiência própria!
É incrível como a gente se afeiçoa a estes bichinhos e a perda deles é sentida como se fosse a de um membro da família. Depois de quase 12 anos de convívio diário não me acostumei, ainda, ao fato de que, ao chegar em casa, ela não estará mais lá, alegre e saltitante, a me saudar com os olhos meigos e a cauda em movimento perpétuo, pronta para brincar comigo e me ajudar a desanuviar a cuca, depois de um dia pesado de trabalho. Ela era minha Happy Hour! Vou sentir saudades… 🙁

Aconteceram também as tão esperadas (e programadas) férias de julho! New York é, simplesmente, fabulosa! Faz juz a toda a fama que tem… e merece um post à parte. Boston, outro destino desta nossa viagem familiar, idem. Aguardem! 😉

And last, but not the least, tem o livro que estou devorando sofregamente (pego-o sempre que surge alguma brecha de tempo livre) e sobre o qual gostaria de me estender um pouquinho aqui. Trata-se da minha “recomendação literária do mês” e é a razão do título um tanto esquisito (em latim) deste post. Estou falando de “Sangue e Entranhas – A assutadora História da Cirurgia.” do médico e jornalista inglês Richard Hollingham, publicado no Brasil pela Geração Editorial. Em uma avalição objetiva (=curta e grossa) eu diria que este livro é, simplesmente, DEMAIS!!! Seguramente um dos melhores que li nestes últimos dez anos (e, acreditem-me, não foram poucos!) 🙂

O autor tece um panorama da evolução da cirurgia, desde a antiguidade (se é que se pode chamar o que era feito, naquelas priscas eras, de cirurgia) até os nossos dias. Destacando a vida e a obra de algumas figuras chave, ele nos mostra os erros e acertos, as dificuldades, os preconceitos e as descobertas feitas por estes homens (e mulheres), às custas de muito sangue, suor e lágrimas. Pode-se dizer que a cirurgia, como a conhecemos, é conquista de pouco mais de 100 anos. O desenvolvimento “explosivo” que ela teve, a partir de fins do século XIX, só foi possível depois de superados quatro grandes obstáculos, que demandaram séculos para serem vencidos:

    1) o desconhecimento da estrutura do corpo humano (anatomia),
    2) não saber como estancar grandes hemorragias (fisiologia da circulação),
    3) não saber como evitar ou minimizar a dor (anestesia) e
    4) não compreender as causas das infecções pós-operatórias e saber como evitá-las (assepsia).

As narrativas são impressionantes. As estratégias adotadas, a obstinação e a engenhosidade dos homens envolvidos, idem.

Um conhecimento mais preciso da estrutura do corpo humano só foi possível a partir dos estudos efetuados, em meados do século XVI, por Andreas Vesalius. Realizados com base na dissecação sistemática (e ilegal!) de cadáveres, culminaram na publicação de sua obra máxima De Humani Corporis Fabrica (A Construção do Corpo Humano), por muitas gerações o guia mais completo e confiável de anatomia humana disponível.

Oitenta anos após Vesalius, William Harvey descobriu o mecanismo da circulação sangüínea. Ambroise Paré, cirurgião-barbeiro(?) do exército francês, desenvolveu uma ferramenta (“bico de corvo”) e técnicas de “ligadura” (de vasos e veias) para estancar grandes hemorragias provocadas por ferimentos de tiro de mosquete.

E por aí vai a história…

Em meados do século XIX (aproximadamente 300 anos depois de Vesalius) um dentista de Boston chamado William Morton, descobre, acidentalmente, as propriedades anestésicas do Éter (um composto derivado de álcool e ácido sulfúrico). Isto representou um avanço considerável ao permitir que se fizessem operações mais demoradas e, portanto, mais complexas. Até então, uma cirurgia, qualquer que fosse a sua magnitude, era (para o infeliz paciente) um empreendimento de altíssimo risco e causa de grande sofrimento. Realizada a seco, com o paciente amarrado e uivando de dor, tinha que ser, acima de tudo, rápida. Para ilustrar este ponto, há uma descrição detalhada, e “muito instrutiva”, de uma amputação de perna feita por um bam-bam-bam da era vitoriana, o Dr. Robert Liston, que conseguia realizar a proeza em menos de 30 segundos!

O problema das infecções foi realmente difícil de resolver… Semmelweiss, um médico húngaro, bateu na trave ao especular que a contaminação por “partículas de material morto” (proveniente dos cadáveres autopsiados) seria a responsável pela alta incidência de febre puerperal (normalmente fatal) na maternidade onde trabalhava. Postulou a importância de se manter limpo o ambiente e instrumentos de trabalho, obrigando os médicos a lavarem as mãos com desinfectante antes das intervenções. Estas medidas acabaram reduzindo consideravelmente as taxas de óbitos que tinha até então. Mas o doutor desentendeu-se com seus pares e, internado pela própria família em um hospício, contraiu uma infecção e acabou morrendo de septicemia.
A solução definitiva só ocorreu quando o grande Louis Pasteur descobriu que as doenças são causadas por germes (micro-organismos) e, baseado neste fato, o Dr. Joseph Lister introduziu procedimentos de assepsia, com o uso abrangente e sistemático do ácido carbólico (um germicida), que reduziram drasticamente as taxas de mortalidade por infecções pós-operatórias.

Tudo isto, y algunas cositas más, é explicado, em detalhes, nas primeiras cem páginas, que correspondem ao primeiro capítulo do livro. Há outros quatro.

Definitivamente, uma leitura imperdível. 😉

8 comentários sobre “De Humani Corporis Fabrica

  1. Rita 17 de setembro de 2011 at 08:35

    Bira,
    Também perdi minha Teka, Scottish Terrier, de maneira parecida… Câncer no fígado… É realmente muito triste!
    Sempre bom ler o que você escreve.
    Abraços.

  2. Fernando Teixeira 17 de setembro de 2011 at 10:49

    Bira,
    Desejo muito sucesso a você nessa etapa de “novas possibilidades”, e espero que a perda de sua cadela labrador seja superada com o tempo.
    Abraço!
    Fernando

  3. Eliete 18 de setembro de 2011 at 12:25

    Bira,
    Tenho dois labradores (pai e filho) e imagino a sua dor… Nestas horas é que sabemos o significado da palavra insubstituivel.
    Força e, assim como a evolução da cirurgia, temos que aceitar e não desistir nunca de continuar amando.
    Só assim você terá infinitos “happy hours” em sua vida.
    Sucesso em seu novo projeto.

  4. Dulce 18 de setembro de 2011 at 23:56

    Que bom que está de volta, meu filho. Seus “escritos” fazem falta, viu? Sei que sou suspeita para falar, mas tenho certeza que seus leitores concordam comigo…
    Torcida total para que tudo dê certo em seu trabalho.
    Bem interessante essa postagem sobre o livro. Ainda vamos conversar muito sobre ele quando eu retornar.
    Beijos e uma boa semana para você.

  5. ThiagoD 19 de setembro de 2011 at 11:55

    Fala Birão,

    Tive uma situação muito parecida com a sua em relação ao “happy hour”: minha cadela, Bambina, também foi embora nas mesmas condições. É muito triste mesmo e sempre ficará a saudade! Que fique em paz!

    Força ae no seu novo projeto, deve ser algo bem legal!

    Valeu pela sugestão do livro, já está na minha lista de “to-dos”. A medicina teve um grande salto após a segunda Guerra Mundial, quando a alopatia teve um grande crescimento. Antes disso é complicado mesmo. eheh…

    Abraços!

  6. Joao Branquinho 19 de setembro de 2011 at 16:12

    Olá Birá,
    Fico contente com seu novo projeto, sei que tudo que vc põe a mão, acaba dando certo!
    Quanto à cachorra, uma pena! Também tenho uma, mas ainda é nova (tem 4 anos).
    Já fico com medo destas doenças também…
    Grande abraço, sucesso e muita saúde!
    João Branquinho

  7. André 20 de setembro de 2011 at 16:01

    E ai Bira.

    Que triste, cara! Eu também perdi meu “Turbo”, um pastor alemão.

    Boa sorte.

  8. Paula 27 de setembro de 2011 at 17:45

    Compadre,
    Tenho certeza que toda pessoa que teve ou tem um animalzinho querido entende perfeitamente sua tristeza neste momento. Não é fácil a separação deles porque são da nossa família e não apenas animais.
    Este momento que você vive e ainda o livro interessante que esta lendo vão com o tempo colocando as coisas no lugar e com a perspectiva correta novamente na sua vida.
    Que as mudanças que vierem daqui para frente sejam sempre positivas e boas, que te permitam encarar novos desafios pessoais e profissionais, dando sempre valor ao que de bom a vida já te deu.
    []s

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