Querido pai (in memoriam)

Não sei se há, mesmo, uma vida após a morte; se podemos, realmente, nos comunicar com os mortos; se existe uma alma imortal, com direito a segunda chance e repescagem ou se, ao contrário, a morte é o fim de tudo e, depois dela, sobrevêm o nada.
Decerto, tenho cá, comigo, uma ideias “meio materialistas” a respeito destes assuntos mas, devo confessar, não ficaria nada desapontado, ou mesmo aborrecido, se, depois de morto, viesse a constatar que estava redondamente enganado!
Seria uma daqueles ocasiões em que (os casados sabem do que estou falando…) NEM SEMPRE o melhor é a gente ter razão ou estar certo. 🙂

Saindo dos “entretantos” e entrando nos “finalmentes”, o fato é que o dia de finados se aproxima e, queiramos ou não, a data enseja em nós um momento de reflexão sobre o grande fato definidor (ou, se preferirem, delimitador) de nossas vidas, que é a morte. É quando damos um tempo, na correria do dia-a-dia, para nos lembrarmos e celebrarmos, com carinho e respeito, daqueles que já se foram desta para melhor.
No México costumam fazer uma grande festa neste dia. Por aqui, costumamos ser mais reservados e contidos.

Nos cinquenta e poucos anos de existência que me foram dados viver até agora, já perdi muitas pessoas queridas: parentes, amigos, colegas e ídolos. Cada um me tocou de uma forma diferente e aprendi com todos.
Resolvi, neste ano, celebrar os meus mortos e, na impossibilidade (por limitações minhas) de ser justo e fiel à memória de todos eles, decidi fazê-lo escrevendo algumas linhas sobre um em particular, meu pai, na expectativa de que o espírito da mensagem esteja à altura dos homenageados e que a mesma possa se estender igualmente aos demais. Espero que gostem…

Trata-de de uma carta “in memoriam”, onde procuro recordar alguns dos inúmeros bons momentos que tivemos juntos e destacar aquilo que foi, para mim, o seu maior ensinamento: o gosto pelos livros, uma fé inquebrantável na capacidade do espírito e engenho criativo humanos, uma curiosidade inata sobre as coisas do mundo e um deslumbramento infinito com as descobertas das maravilhas da mãe natureza, que nos acolhe e que existe em cada um de nós.

Dito isto, e entrando de fato nos “finalmentes”, vamos a ela:

Querido pai,

Às vezes sinto uma saudade enorme sua. Tão grande e apertada que chega, mesmo, a doer…
Ahrre!!! Sinto falta das suas apaixonadas (e didáticas) explicações sobre como os romanos foram derrotados pelo exército do astuto Aníbal (que cruzou os Alpes montado em elefantes), de como o processo de previsão de tempo é baseado em cálculos computacionais complexos (que levam em consideração milhões de parâmetros coletados por milhares de estações meteorológicas e modelos matemáticos sofisticados).
Ou, simplesmente, de um “causo” curioso, ou engraçado, passado quando o senhor era menino, e estudava na escola agrícola de Barbacena… 🙂

Lembro-me, pai, dos passeios que fazíamos ao centro da cidade, quando íamos de ônibus, eu segurando na sua mão para atravessarmos as ruas mais movimentadas, e de como o senhor sempre dava um jeitinho para fazermos “aquela parada obrigatória” na barraquinha do pastel, para “traçar” um de carne e outro de queijo, fritos na hora… (e, até hoje, os melhores que já comi, “juro por Deus!”).
E de quando jogávamos “gol a gol”, o mano e eu contra o senhor, no quintalzinho da nossa casa da Rua Caquito.
Havia também as barrinhas e “cigarrinhos” de chocolate “Pan” (naquela época, tão bons…) que o senhor trazia à noite, para casa, quando voltava das suas aulas na USP.

Lembra-se da primeira vez que me levou ao cinema para assistirmos a “Jasão e o velo de ouro”? Durante o intervalo foi quando eu vi meu primeiro arco-iris de verdade e ao vivo. Lindo! E da estreia de “2001, Uma Odisseia no Espaço”, que eu amei, embora não tivesse entendido nem metade da estória. (A propósito, tinha exatos dez anos, na ocasião, e como parecia menos quase não me deixaram entrar para assistir ao épico.)

História militar (“Combateremos à sombra!”), arqueologia, matemática, física, cosmologia (Big Bang), economia, política, biologia, computação… a lista de assuntos de que gostava (e dominava) era bastante extensa e eclética. E os livros, então? Era livro para tudo quanto era lado… (Esta mania herdei de você… hehehe!).
Havia também a sua paixão incondicional pela Brigitte Bardot e pela Julia Roberts (que mamãe mal tolerava…), pelas “Jornadas” de Kirk e Spock, pela revista “Scientific American” (em inglês!), pela Bossa Nova de Tom e Vinícius, os “standards” na voz impecável de Johnny Mathis (aqueles discos de vinil tocaram até furar…), o charme sofisticado do velho “chansonnier” Aznavour, Paris (a eterna cidade luz), Saint-Exupéry (o escritor-aviador do “Pequeno Príncipe”, meu primeiro livro em francês), os deuses da mitologia greco-romana, Sean Connery (“James Bond”), o Velho e o Novo Testamentos (imagina se você fosse crente… vixe!), o Newton da maçã, Galileu, Pascal, Descartes (“Cogito, ergo sum.”), Lavoisier (“Na natureza nada se cria…”), Laplace, Fourier (e suas as famosas transformadas), o método de Monte Carlo, as cadeias de Markov, Landau, Fidel (“Êta cabra macho!”), JK, Napoleão, Zhukov (batalha de Kursk), Brizola (outro “cabra macho”), Ulisses (os três), Keynes, Marx (“mais valia”), Einstein (E=mc2), Planck, Bohr, Gell-Mann (“quarks”), Hermman Khan (teórico do “impensável”), Asimov (dos robots), Gamow, Hubble, Sagan (Cosmos), Darwin (“O homem descende do macaco…”), Pasteur, Babbage, von Neumann, Turing, Kennedy (“cabra macho”, indeed!), Galbraith, Da Vinci, Monet, Van Gogh, Renoir, Júlio Verne, H. G. Wells, Orwell (1984)… Esqueci-me de alguém, pai? De muitos, com certeza… Desculpe!
Estes gigantes, que habitavam o seu imaginário cotidiano, que o senhor tanto admirava e cujas descobertas e realizações tanto o fascinavam, conheci-os, a quase totalidade deles, por seu intermédio, através de seus olhos e, por isto, (por mais esta “herança”) sou-lhe eternamente grato.

Com alguma sorte, talvez possa deixar (quem sabe?), quando eu me for deste mundo (em um futuro bem distante… espero!), lembranças igualmente agradáveis e ensinamentos tão significativos como estes, dos quais tenho hoje o privilégio de usufruir, frutos da convivência com um ser humano tão especial que, quis o destino, fosse meu pai.

Obrigado, “meu velho”, mais uma vez e por tudo isto.

E feliz dia dos mortos!
🙂

16 comentários sobre “Querido pai (in memoriam)

  1. Márcia 27 de outubro de 2013 at 21:15

    Bira,
    Muito interessante tudo o que escreveu sobre seu pai. Uma bela homenagem. Parece que estou lhe ouvindo e vendo falar, de uma forma tão natural. Lembro-me sempre de quando contava das vitaminas dos alimentos: coma alface, porque tem vitamina A, coma cenoura, porque tem vitamina C. Até um dia, em uma aula, que a sua professora falou sobre óleo de fígado de bacalhau, que contém vitaminas A e D. Você disse que ficou surpreso, achando que o certo seria vitaminas O, F ou B. Lembra-se disso? Eu nunca me esqueço. Achei tão genial que sempre conto essa história aos meus amigos.
    Bira, apesar de acreditar numa vida eterna e você dizer que não tem essa convicção, eu lhe digo: A pessoa que é lembrada, comentada, admirada e amada, está sempre viva e viverá por muito tempo enquanto houver alguém que fale algo sobre ela.
    Acredito que seu pai, está vivo, nos corações, mentes e lembranças. Pois, até eu me lembro dele, sem nunca tê-lo visto.
    Acho que ele é bem feliz por tudo isso e está contente com sua homenagem!!

    Parabéns!!

    Márcia.

    • Lucia Costa 27 de outubro de 2013 at 22:34

      Excelente comentário, Márcia.

    • Lin 28 de outubro de 2013 at 08:32

      Bonita homenagem, Bira. Belo comentário também.
      Ele me lembra um dito (cuja origem parece ser controversa) que me foi apresentado outro dia e a ideia é essa mesmo:
      “There are three deaths. The first is when the body ceases to function. The second is when the body is consigned to the grave. The third is that moment, sometime in the future, when your name is spoken for the last time.” ― David Eagleman

  2. Lucia Costa 27 de outubro de 2013 at 21:28

    Olá Bira (Costa? nada de parentesco, apenas um sobrenome comum, acredito!).
    Amei ler você e, sem querer que sua mãe fique enciumada de mim, apaixonei-me por seu pai também! Que culto! Bela herança. Parabéns e beijos, Lucia Costa

    • Ubirajara Costa 28 de outubro de 2013 at 10:08

      Meu “velho” costumava dizer que “este tal de Costa devia ser um cara muito bonito… a julgar pela quantidade de pessoas com este sobrenome que a gente vê por aí. A família é grande!”
      Portanto, prima, bem-vinda ao clã!
      😉

  3. Lucia Costa 27 de outubro de 2013 at 22:33

    Bira, complementando o primeiro comentário, agora quero comentar sobre a morte. Não sei nada sobre ela, obviamente … rs, mas que sentido teria a vida se após a morte não houver sequência? Fica muito vago, sem explicação porque existimos.

    • Ubirajara Costa 28 de outubro de 2013 at 00:38

      Pois é, cara amiga…
      Simplesmente… não tenho explicação alguma para o motivo da nossa existência… Sorry! 🙁
      Arrisco-me a dizer, contudo, que, TALVEZ, não haja motivo algum… E, devo confessar, isto não me tira o sono de forma alguma. Por que deveria? Afinal de contas, viver é tão bom, não é mesmo?

      Ocorre que nós, humanos (uma grande parte, pelo menos), nos sentimos imensamente incomodados com a possibilidade de uma vida sem sentido intrínseco, “animados” por um impulso incontrolável de explicar e dar significado a tudo. Mas… e se existirem coisas que não possam ser explicadas? (Absurdo?)

      Eu sei que esta ideia pode parecer um tanto herética (ainda bem que a Inquisição foi abolida já faz um bom tempinho!) mas… e se estivermos procurando a solução de um problema inexistente? (Complicado?)

      Veja bem… (hehehe!) uma pedra, um grão de trigo e uma borboleta azul, que certamente existem (“desculpe aí, Descartes”), muito provavelmente não estão nadinha preocupadas com estas “questões”. Simplesmente, são!
      (E como diriam os nossos amigos franceses: “C’est la vie!”)

      Talvez o melhor a fazer, nestes casos, seja deixar estas questões insolúveis de lado, e seguirmos com nossas vidas de acordo com os ensinamentos do sábio e “imortal” Sir Paul McCartney, que em um de seus inúmeros momentos de inspiração, postulou: “Live and let live.”

      “E vamu que vamu…” 😉

      Grande abraço.
      Bira

      P.S. Obrigado pelos seus comentários!
      😎

  4. Luiz Riberto Pettinari 27 de outubro de 2013 at 23:26

    Caro Amigo

    Quanto tempo… saudade.
    Cheguei a esse texto por acaso (facebook da Lúcia Costa). Fiquei na dúvida se era realmente o Bira que eu conhecia. Dúvida dissipada com a história das vitaminas que já conhecia. Belo texto que me fez refletir sobre o meu próprio pai que graças a Deus (eu acredito) está vivo e preciso curtir enquanto puder, sobre meus filhos que já constituíram família e espero tenham levado algo de bom na bagagem que entreguei e meu neto ou neta que vem por aí. Aliás, que mundo deixaremos para ele ?
    Um grande abraço.
    Saúde e Paz !

    Riberto

    • Ubirajara Costa 28 de outubro de 2013 at 01:11

      Riberto,
      Fico feliz em receber notícias suas e saber que a família Pettinari está prosperando.
      E meus parabéns, vovô, pela chegada do mais novo integrante do clã.
      Nossos anos de convívio profissional foram muito ricos para mim e guardo boas recordações daqueles tempos…
      Obrigado por visitar o meu blog e apareça de vez em quando para os nossos “dois dedos de prosa”.
      É sempre um prazer imenso quando temos a oportunidade de rever, mesmo que virtualmente, “velhos” (no bom sentido, é claro) e queridos amigos.
      Um grande abraço e, como não poderia faltar, SAUDAÇÕES TRICOLORES! 😉
      Bira

  5. Dulce Costa 28 de outubro de 2013 at 11:51

    Sabe, filho, uma das coisas que me faz muito feliz é ter escolhido Seu Bira para ser o pai dos meus filhos, porque com seus conhecimentos, sua sensibilidade e seu amor pela família, ele continua honrando essa minha escolha.
    Maravilhoso compartilhar com você e com seus irmãos, essas memórias e, dessa forma, senti-lo ainda ao nosso lado.
    E você sabe que eu acredito muito nessa presença, não é? Não há momento em nossas vidas, quando nos reunimos, que ele não esteja conosco, através dessas lembranças e do exemplo de vida e coragem que ele nos deixou.
    Obrigada, filho, por mais este momento de emoção e saudade.
    Beijos.

    • Luiz Pacifico 19 de janeiro de 2015 at 14:45

      Olá Bira, quanto tempo…
      Fiz questão de comentar aqui, na postagem da sua mãe, porque ao ler seu artigo, me deparei com lembranças daquele tempo lá na Mooca, onde por inúmeras vezes “dei de cara” com seu pai no elevador (ele sempre ia pegar uns livros lá no Bragança, e eu morava no sexto andar, os encontros eram quase inevitáveis).
      Eu sempre fui muito observador, olhava para ele com curiosidade, aquele homem alto, com sandálias de couro e roupas simples, e afinal o que esse senhor tanto lia? Por vezes conversei com ele, ele me tratava com respeito e interesse, apesar dos meus 12 ou 13 anos, me cumprimentava como a um adulto e isso me deixava honrado. Sempre o vi como um homem simples, com olhar generoso e extrema cultura. Sempre me falava alguma coisa que eu não sabia o que queria dizer, mas na minha mente ainda guardo o olhar carinhoso do “homem dos livros”… Talvez você não saiba, mas eu e seu pai conversamos muito naqueles anos de elevador, ele sempre me exortava com classe, pelas bagunças que eu fazia pelo prédio, mas sempre me tratou com carinho. Parabéns pelo seu Pai, e a Dona Dulce pela escolha.

  6. Mariana Arruda 28 de outubro de 2013 at 13:08

    Bira,
    Eu, infelizmente, não conheci seu pai. Mas tive a oportunidade de presenciar diversos momentos nos quais você e sua família falaram sobre ele, contaram histórias dele, descreveram seu comportamento, lembraram-se dele. Com base nisso, embora não o tenha conhecido, eu tenho uma impressão de que você não herdou apenas o gosto por colecionar livros (e muitos livros!), mas também essa curiosidade a respeito do mundo, de querer conhecê-lo em suas minúcias, se isso for possível, além da fé na criatividade e engenhosidade do ser humano de produzir coisas novas a todo tempo.
    Como você bem sabe, eu acredito que existe algo além desse mundo e tenho certeza de que, onde quer que esteja, seu pai hoje olha por você, além de viver dentro de você, em suas memórias e no seu coração.
    Tenho certeza de que, quando você se for, também irá deixar muitas lembranças boas para o Caio, como essas que você tem do seu pai. Mas garanto que, já hoje, você nos ensina muito. Estamos aprendendo com você o tempo todo e continuaremos aproveitando isso o máximo possível!
    Adorei o texto!
    Abraços,
    Mariana.

  7. maria antonieta 30 de outubro de 2013 at 21:41

    Bira
    Infelizmente ainda não existe remédio para saudade. Uma carta como essa demonstra sua forma de lidar com ela. Aliás, escrever é, quase sempre, sua forma mais forte de expressão. Devia escrever mais!
    Em todos os momentos, que não são raros nem poucos, que S. Bira “aparece” em nosso dia a dia, embora seja sempre com saudade e com tristeza pela ausência, também acaba em risos misturados às lágrimas pelas lembranças peculiares que refletem a personalidade que ele foi e deixou entre nós. Isso, à minha maneira de ver e crer (nossa maior divergência, sempre respeitosa, nesses 25 anos de convivência) faz com que ele compartilhe esses momentos conosco, esteja onde estiver.
    Também quero expressar aqui minha total concordância com a Mariana quando ela diz sobre os exemplos que você também vem deixando não somente ao Caio e Mariana, mas a alguns amigos deles e a outros que têm a chance e o privilégio de escutá-lo. Alguns mais velhos também, rsrsrs…
    Parabéns pelo texto. Reflete sua saudade, mas, principalmente, sua sensibilidade.
    Um beijo,
    Tô.

  8. Angelica Costa 9 de novembro de 2013 at 13:12

    Lindo! Quantas saudades…! Bjs.

  9. Graça Pereira (Machado) 7 de janeiro de 2015 at 12:35

    Gostei do que li. Já vi que a arte de escrever , vem da mãe, minha querida amiga Dulce.
    Creio na vida para além da morte… Seria um “artista” muito pouco imaginativo e com poucos recursos se… a obra, não viesse já com todas as soluções! Grandiosa a vida …para acabar num buraco? Seria, no mínimo, muito pouco inteligente!
    Deixo um abraço amigo e costumo dizer que os “ateus” são os melhores crentes do mundo.
    Graça

  10. M Gloria D Tedesco 2 de novembro de 2017 at 11:07

    Bira, li só hoje, depois da sua publicação no grupo. Mas. E tocou bastante, já que infelizmente, não conto mais com nenhum dos meus pais. Depois deste texto entendo mais você, meu amigo. Sabia que nos tempos de escola achava que você tinha um ar superior, um lord inglês ou algo assim, diferente dos demais. Hoje entendo a diferença, foi está super herança deixada pelo seu pai. Que bom poder começar meu dia com estas deliciosas palavras. Lembrei do meu pai, que nem de longe tinha a mesma cultura que o seu, mas se tratava de pessoa de caráter ímpar, cujos pilares de verdade e honestidade nortearam nossas vidas. Obrigada amigo!

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