Je suis Charlie (?)

“Como não poderia deixar passar em brancas nuvens os comoventes acontecimentos da última semana, a respeito dos quais teço aqui algumas considerações…”

Não sou nenhum profundo conhecedor de estratégias antiterroristas ou técnicas de controle de massas mas… qual a utilidade de se mobilizar elevado contingente de militares, como vem fazendo a França, ao longo da última semana, em resposta ao ataque ocorrido no semanário Charlie Hebdo? Foram deslocados quase 10 mil homens e mulheres para este fim, além dos habitualmente alocados em serviços de segurança interna, como inteligência e patrulhamento ostensivo. Será que eles esperam, para breve, novos ataques, em continuidade aos últimos?

Se sim, como, e por quanto tempo, pretendem manter este oneroso contingente extra, mobilizado, motivado, alerta e, efetivamente, atuante? Vão começar a pedir na rua a carteira de identidade de todo mundo que parecer suspeito? (Aliás, qual a aparência de um “suspeito”?) Existem, atualmente, mais de 5 milhões de muçulmanos morando na França. Uma grande parte deles é francesa de nascimento. Checar todo mundo, o tempo todo, seria, de alguma forma, útil? Ou desejável? Ou, mesmo, factível?

Se eu fosse terrorista, eu dava um tempo, esperava as coisas se acalmarem, este contingente todo se desmobilizar e, só então, voltaria à carga. Convenhamos que esta é uma ideia bem simplória, que certamente deve ter ocorrido a um “zilhão” de terroristas, certo? Portanto, qual a efetividade da mobilização, a não ser “mostrar serviço”, dar a ilusão de que alguém (neste caso, o próprio governo) está fazendo alguma coisa… No mínimo, aumentar, na população, a sensação (psicológica!) de segurança… Será isto?

Pessoalmente, não estou muito convencido desta última afirmação. Tenho lembrança de duas ocasiões vividas, uma quando tinha uns oito anos de idade (nos idos da “era de chumbo”, quando era comum a guerrilha brasileira atacar agências bancárias para financiar as suas ações) e outra já maduro (quando, por motivos profissionais, tive que visitar uma Guatemala recém pacificada), em que a presença maciça, nas ruas, de soldados portando metralhadoras, acabou tendo um efeito exatamente oposto, produzindo em mim um medo desmedido e desnecessário.

Para arrematar, os ultrarradicais da Frente Nacional (partido francês de direita) perderam uma ótima oportunidade de se promoverem ao não participar das manifestações generalizadas ocorridas no último fim-de-semana, em diversos pontos da França, que reuniram mais de quatro milhões de pessoas, para homenagear as vítimas dos recentes atentados terroristas e expressar o seu repúdio pelo fanatismo religioso. O problema é que o pessoal da FN é adepto da máxima do “dente por dente, olho por olho”, não gosta muito de imigrantes e muito menos de muçulmanos.

Nós, brasileiros, sabemos, por experiência própria, que a fusão de raças e culturas diversas, possibilitada pela imigração, nos enriquece, provê sinergia e acaba, no final, se revelando uma coisa boa. Sabemos, também, que nem todo muçulmano é um fanático terrorista!

Parece-me que o pessoal da FN não sabe nada disto… (Este assunto ainda vai dar muito pano prá manga!)
😎

P.S. Por mais hediondo, e injustificável, que tenha sido o ataque dos irmãos Kouachi ao semanário satírico, os caras do jornal francês abusaram da sorte… (Já haviam sofrido atentado a bomba antes e precisavam de proteção policial, ineficaz como os fatos acabaram demonstrando.) E, embora, pessoalmente, eu concorde, em princípio, com o direito inalienável da liberdade de expressão, considero cortesia, polidez e boa educação como sendo coisas MUITO boas, as quais aprecio sobremaneira. Cultivá-las demonstra, no mínimo, um certo grau de finesse, expressão francesa que as vítimas do atentado pareciam não valorizar muito, sabe-se lá por qual motivo.

À primeira vista, este fato poderia demonstrar uma “aparente” contradição, visto serem, eles mesmos, os tais jornalistas mortos, representantes de uma certa intelectualidade estudantil diretamente envolvida com uns movimentos reivindicatórios ocorridos em Paris, em maio de 1968. Portanto, la crème de la crème! É interessante observar que, no mundo do politicamente correto, da “descoberta” americana do velho e conhecido bullying (vai me dizer que você nunca sofreu, ou presenciou, este tipo de coisa em casa, na rua ou na escola, quando era criança…) a gente acaba tendo a tendência pueril (complexo de vira-lata?) de achar que tudo aquilo que vem “daquela parte das Europa que fala fazendo biquinho”, é, necessariamente (só por causa da sua origem), muito melhor, ou superior, ao que temos “porraqui”… Ledo engano!

Os caras podiam ser muito inteligentes, algumas vezes espirituosos (ou, mesmo, engraçados) mas não tinham o mínimo de educação, ou consideração pelas crenças dos outros… Ridicularizar o outro, porque não pensa como você, é bullying na melhor acepção da palavra, grosseria pura mesmo… e total incivilidade! Pior quando você se esconde atrás de uma publicação, alegando seu “direito inalienável de liberdade de expressão”, para falar qualquer (desculpem o termo) merda que lhe dê na telha. Comportamento que não contribui, em nada, para a construção de uma sociedade pluralista, que valorize a multiplicidade de visões de mundo ou que tolere as diferenças.

A fronteira é tênue, eu sei. E navegar nela, com maestria, é MUITO difícil… (exige sensibilidade, “bom senso” e responsabilidade!) Para alcançarmos a utopia da paz mundial imaginada pelo grande John Lennon, não podemos nos esquecer, jamais, de uma  máxima de outro guru, o iluminado Siddhartha Gautama, que diz: “A virtude está no meio.”

Pensado bem… “Je ne suis pas Charlie Hebdo.”

Pas de tout!  😎

2 comentários sobre “Je suis Charlie (?)

  1. Ingrid Liebl 13 de janeiro de 2015 at 18:57

    Pois é, querido Ubirajara, concordo com muito do que vc escreveu sobre este assunto… mas também entendo que, depois deste ato de terrorismo, porque não podemos chamar de outra coisa, as autoridades francesas tinham que dar uma resposta às pressões que o mundo inteiro fez.
    Sinto muito, mesmo, pelas vítimas inocentes que foram mortas na caçada que se armou. Mais uma vez vidas inocentes são desperdiçadas para dar respostas à sociedade. Resolveram alguma coisa??? Com certeza, nada! Talvez tenha servido de estímulo para outros terroristas executarem ações em resposta a esta, e assim por diante.
    Será que é uma estratégia para diminuir a população global?
    Fico muito triste com tudo isto.
    Bjs

  2. sibilla 10 de setembro de 2015 at 19:03

    Mois non plus!

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