Cavalo de Tróia

Cavalo de Tróia

Sabe aquela máxima “perder o amigo, mas não perder a piada?” Acho que tem muito jornalista e chargista que se guia por ela. Vejamos o caso da charge acima, que andou circulando, recentemente, no Facebook.

É evidente que, entre as centenas de milhares de refugiados que estão procurando um cantinho para ficar em solo europeu, deve ter uns terroristas infiltrados no meio… Mas é muita inocência (para não dizer má fé xenofóbica) supor que não haja terroristas entre os viajantes comuns… Alguns, aliás, nasceram na própria Europa e nem sequer precisaram entrar nela, pois sempre estiveram lá! Basta acompanhar o noticiário internacional para ver a quantidade de europeu que faz parte do EI.

Usar esta possibilidade como pretexto para excluir os que estão, realmente, necessitados (como a mensagem da charge pode sugerir) é, no mínimo, hipócrita e “desumano” (no sentido de não se importar muito com os menos afortunados). O desenho até que é bem feitinho, não resta dúvida… (Embora a ideia seja um tanto óbvia!) Em minha opinião, trata-se de humor negro e, como sempre,  de muito mau gosto.

Uma leitura mais ampla do contexto em que  a ação da charge se desenrola exige que recapitulemos alguns fatos históricos, para tentarmos entender o quadro mais geral e o comportamento de alguns protagonistas importantes. Vejamos…

1) O Ocidente (leia-se Inglaterra, França e EUA) é parcialmente responsável por este estado de coisas… Afinal, foram estas potências que, para prevalecerem sobre as nações “inferiores”, durante o recente período de neocolonialismo, aplicaram com diligência a máxima de “dividir para governar”. Assim, ao reunir etnias historicamente rivais (como xiitas, sunitas e curdos) sob um mesmo teto (leia-se um país arbitrariamente definido, sem respeitar os limites impostos pela ocupação humana preexistente) eles fomentaram a rivalidade entre as mesmas, evitando que se unissem e, desta forma, pudessem se livrar do jugo do dominador. 

Maquiavélico, não?

Pois é… Funcionou que foi uma beleza, na Índia, por mais de 200 anos! A tensão entre muçulmanos e sikhs era tamanha, por ocasião da independência, que os indianos tiveram que realocar uma parte da população e acabaram criando o novo estado do Paquistão.

Agora, o que me intriga, mesmo, é saber o motivo pelo qual o magnânimo Tio Sam, quando teve a oportunidade de corrigir o “erro” histórico de seus antigos mestres (“quebrando” o Iraque, etnicamente dividido, em um conjunto de países menores e independentes entre si), optou por não fazê-lo… (Será que foi para manter a divisão e, deste forma, poder melhor controlar o precioso fluxo de petróleo, de que tanto os EUA precisam?) Ponto para reflexão.

Outro ponto importante: 2) Por que a OTAN (organização militar da Europa + EUA) não põe um fim, de uma vez por todas, neste tal de Estado Islâmico? Recursos militares eles têm se sobra…

Arrisco-me a dizer que o motivo é básico: as questões humanitárias, no “mundo real”, pura e simplesmente, não rendem dividendos. A não ser por meia dúzia de idealistas, os caras que decidem fazem as contas e, se o resultado financeiro final for “prejú”, acabam optando pelo velho e conhecido “laissez-faire” (ou, se preferirem, por um sacrossanto princípio de “autodeterminação” dos povos). Muito conveniente, não? Estou cada vez mais convencido de que, na maior parte das vezes, sempre foi assim!  🙁

Pois não é que os caras deixaram a coisa “degringolar de vez”, nos Balcãs, até que finalmente intercederam, quando não tinham mais jeito de pular fora… (e olha que a antiga Iugoslávia ficava, literalmente, no quintal dos fundos da Europa!).

Mais exemplos? Vejamos… Ruanda, Etiópia, Camboja… Alguma coisa foi, efetivamente, feita nestes lugares, para evitar as tragédias humanas que se abateram por lá? (Para azar deles, eles não tinham nada, do ponto de vista econômico, que pudessem oferecer em troca de “ajuda humanitária”…)

Não menos importante é o fato de que a Alemanha (embora tenha ainda muito do que se redimir, pelo enorme sofrimento que impingiu a “meio mundo”, nas duas grandes guerras mundiais) se mostrou excepcionalmente caridosa. Não nos enganemos, seu governo não é nada bobo. Certamente, esperam auferir algum benefício com esta “grande ação humanitária”. É fato que a população alemã está envelhecendo, e diminuindo, de forma consistente e preocupante. Eles sabem que precisam repor a mão-de-obra que vai faltar… E nós sabemos, por experiência própria , do que são capazes pessoas desesperadas, que não tinham nada, e às quais foi dada a oportunidade de um recomeço. (Vide o efeito altamente polinizador – e enriquecedor – das imigrações japonesa, italiana e alemã no sul/sudeste do Brasil, na virada do século XIX para o XX).

Como costumam nos ensinar nos livros de administração, trata-se de uma negociação do tipo “ganha-ganha”. O que, com certeza, é uma coisa muito boa!

Finalizando minhas elucubrações deste post, há quem tema, ao acolher estes pobres coitados, sofrer uma invasão islâmica, e o fato de o islamismo ser considerado por alguns (mal informados, com certeza!) uma religião sanguinária…

Veja bem… (Hehehe!) Podemos dizer que protestantes e católicos são igualmente sanguinários, se nos lembrarmos das Cruzadas, da Santa Inquisição ou do IRA, certo? Conheço alguns muçulmanos que são até bem pacíficos… E, certamente, eu incluiria os milhões de refugiados atuais nesta categoria.

Inshalá!!!  😎

P.S. “Inshalá” (ou “Inshallah”) é uma expressão árabe que significa: “Se Deus quiser”, Oxalá.

2 comentários sobre “Cavalo de Tróia

  1. Manfrid Raatz 10 de setembro de 2015 at 20:00

    Interessante que o país que foi o berço da ideologia nazista, uma das mais abomináveis já vistas, seja justamente o que abriu as portas para os refugiados.
    Pouco se falou sobre esse fato…
    Parece que a humanidade só consegue construir muros.

  2. José Luiz Maffei 11 de setembro de 2015 at 18:01

    Bira, excelente análise sob todos os aspectos. Eu nunca acreditei muito em fronteiras; acho que elas são mais uma forma de divisão usada dentro da mesma ideia da torre de Babel: se não se entendem, não podem conspirar, certo?

    Já em relação aos muçulmanos, mais uma vez se usa a religião para justificar crimes e barbárie…é um tremendo engano achar que existe “guerra santa”, e que qualquer dos grupos radicais tenha algo a ver com o islã em sua essência. A Al-Qaeda, por exemplo, sempre teve como principal objetivo o tráfico de drogas e a exploração do comércio ilegal de pedras preciosas. O “Estado Islãmico”, além dessas duas atividades, também explora o tráfico de armas e de pessoas com o objetivo de escravizá-las.

    É preciso, portanto, separar o joio do trigo: imigrantes são bem-vindos, terroristas não. Ao invés de se preocuparem com a eventual entrada de um terrorista infiltrado no meio de trabalhadores honestos e pacíficos, os países deveriam se unir e matar a cobra em seu ninho, ou seja, sitiar e destruir essa organização criminosa que se auto-denomina ISIS. E, concordo, têm como fazê-lo. Haverá danos colaterais? Com certeza. Garotas e moleques iludidos pelos dirigentes do EI, britânicos, americanos, franceses e outros vão morrer no processo. Só que não é momento para pruridos politicamente corretos: o mundo está em perigo real, porque eles usam sem nenhum pudor a força e a violência. É mais ou menos o que vimos no Brasil: enquanto somos instados a não reagir, a deixar nossas armas com o poder público, os que não têm escrúpulos fazem a festa.

    Enquanto o mundo desenvolvido tiver medo de tomar uma ação “antipática” atacando de uma só vez, brutalmente, as cidades em que se estabelece o EI, eles vão crescer…e cada vez mais, vão aliciar, destruir e matar.

    O ocidente, hoje, pratica o que eu chamo de omissão genocida.

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